O Hospital, o Médico e o Administrador

É impossível ignorar a força das novelas televisivas como plataforma de lançamento de sensíveis questões políticas, sócio-culturais e éticas. Vale recordar das realidades da política e da administração municipal na Sucupira de O Bem Amado. Ou mesmo da falta de consciência coletiva para a tragédia do tráfico humano internacional em Salve Jorge.

A TV Globo, agora pela pena de Valcyr Carrasco, coloca em ebulição a homofobia a partir das entranhas de um vulcão: a própria família. A força da explosão libera lavas que atingem a todos. Até mesmo a maior vítima que, para superar o preconceito e o desamor, adota comportamento transgressor como estratégia de sobrevivência. Intrigas, corrupção e tentativas de assassinato surgem daí em diabólicas manifestações. Assim, construiu-se Félix, personagem passivo e ativo da prática do mal; vítima e algoz no cenário de uma vida que, em diferentes medidas, contém dimensões da existência sempre aflita de todos nós.

Atento, no entanto, para outra fobia que também acomete o personagem César, pai de Félix. Esta talvez tenha passado despercebida pelos espectadores. Capítulos atrás,  Félix explicita para César, dono e poderoso diretor de um hospital, a expectativa de assumir a direção da empresa no futuro. Incrédulo, o Dr. César exclama: “Mas Félix, você não é médico, é um mero administrador!”.

O texto é revelador de uma visão preconceituosa, generalizada  no universo das profissões: a “administrativofobia”. “Mero” quer dizer comum, simples, vulgar, tudo o que para César qualifica a função de administrar, à qual  manifesta repulsa e incompatibilidade com sua nobre função médica.

Esta visão subalterna da função administrativa é seriamente danosa à sociedade. A falta de administradores especializados e prestigiados para as lutas internas de poder têm resultado em desastres institucionais nos setores público e privado, com perversas consequências quantitativas e qualitativas.

Não quero aqui advogar, por corporativismo, uma classe profissional, mas sim explicitar a extrema relevância de uma função. A profissão de administrador é regulamentada no país e conta com a defesa legítima de seus conselhos nacional e estaduais. Mas a função administrativa é pouco compreendida. Ressalto os muitos programas de mestrado profissional e de especialização em Administração que formam e capacitam grandes números de médicos, advogados, militares, engenheiros e demais profissionais em todo o país.

É imperioso registrar que o problema não se restringe à área da saúde. Será que também teremos que importar engenheiros que construam sistemas de transmissão compatíveis com as correspondentes usinas produtoras de energia hidroelétrica, como nos aponta a vergonhosa experiência recém-revelada do Rio Madeira?

O problema não é de engenharia em um país que já construiu Itaipú e a fez funcionar. É de administração. E em todas as áreas de decisões e ações, privadas ou públicas.

Sobre o autor

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É administrador e professor de Administração na FGV.

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Comentário

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    Eduardo Araujo Santos

    Concordo com tudo que foi escrito. Se o país está desse jeito, foi por falta de uma boa administração, que vive sendo relegada em função da politicagem.
    Sabemos que a eficiência já é princípio constitucional, mas não observamos melhora alguma, em todos os níveis. Os Conselhos de Administração deveriam apoiar um candidato administrador para mostrarmos a capacidade de liderança, fiscalizar a destinação dos recursos públicos (muitos acham que o orçamento é insuficiente, sem ao menos fiscalizar e responsabilizar quem não soube empregar os recursos), etc. Observo o caos na Saúde, os médicos afirmam que falta de tudo, mas será que o diretor do hospital licitou? Não precisamos aumentar os gastos, simplesmente. Isso é administrar!

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