No mês de outubro, além do Dia do Mestre, o calendário marca uma outra data em que se comemora o Dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida e o Dia da Criança. São muitas as razões para que esta data seja comemorada, pois é dia de devoção, de compromisso e responsabilidade. Do compromisso de tudo fazer para que nossas crianças nasçam, cresçam, se façam jovens e adultos educados, sadios, responsáveis, felizes.

É comum que o Dia da Criança seja lembrado com presentes, com passeios, com carinho. Isto seria uma boa maneira de comemorar o Dia da Criança se todas elas recebessem essas mesmas atenções.

Lamentavelmente, sabemos que para muitas isto não ocorre. É odioso, mas a desigualdade, a discriminação, começam muito cedo. Penso que uma boa maneira de registrar o Dia das Crianças é refletir sobre a responsabilidade que família, comunidade, escola, governo, sociedade têm com todas as crianças brasileiras, sobretudo com aquelas que precisam ter suas necessidades básicas atendidas, e que são milhões.

O compromisso e a responsabilidade com as crianças deve ter início com sua concepção. Uma criança não pode ser o produto efêmero de um ato inconsequente e fugaz. Ela precisa ser gerada por um ato de amor. Ela precisa ser gestada com cuidados com sua saúde e de sua mãe, cercada pelo carinho de uma família estruturada, consciente da responsabilidade de ter, manter e educar um filho.

Os primeiros anos de vida de uma criança, até os sete anos, são de capital importância para seu desenvolvimento físico, emocional, afetivo, cognitivo.  Todas as crianças brasileiras – e são milhões – deveriam ter direito a uma infância feliz, saudável. A criança é um sujeito de direitos alienáveis. E esses direitos estão contidos no atendimento de suas necessidades básicas: saúde, alimentação, habitação, educação, segurança afetiva e social.

Independente de sua origem, seus direitos têm que ser preservados. É dever do governo e da sociedade defender seu direito a um atendimento global, tendo como ponto de partida a família, a educação e a saúde. São sobejamente conhecidas as consequências da omissão desse atendimento. As precárias condições de saúde de muitas mães gestam crianças debilitadas. A desnutrição e a ausência de cuidados com a saúde agravam as condições de vida das crianças, provocando a mortalidade infantil, os comprometimentos físico e mental, a depauperação orgânica, e vulnerabilidade às doenças infantis. Some-se a isto, o fato de que muitas famílias e o meio ambiente não dispõem de condições estimuladoras de comportamentos e atitudes que contribuam para o pleno desenvolvimento das capacidades das crianças.

A privação dessas condições gera consequências que terão reflexos na relação da criança consigo mesma, com os outros e com o mundo que a cerca. Desde a acuidade dos sentidos até a construção do conhecimento. Desde a percepção dos problemas, questões, desafios, até a solução de situações de vida; pois é na primeira infância, que se formam, na criança, ou começam a se formar hábitos, atitudes, valores. É na infância que suas potencialidades precisam ser despertadas e sua criatividade incentivada; é nesta faixa etária que as crianças devem ser iniciadas na difícil arte de conviver; que devem ser vivenciadas novas experiências para melhor se prepararem para os desafios futuros.

O amanhã das crianças depende de suas vivências de hoje. Seu desenvolvimento global e harmônico depende de sua formação genética, do meio e das condições em que vivem. A má alimentação que lhe amesquinha o físico e o cérebro; a precariedade de recursos médicos; a ausência de saneamento básico; a falta de ambiência cultural que adormece seus estímulos; a indiferença que cria o desamor; o desamor, a violência e a injustiça que geram a falta de afeto e a incompreensão – tudo isto conduz à estagnação e aos desvios, marcando indelevelmente a criança com estigmas que vão pautar seu futuro comportamento social.

É preciso, portanto, remover as causas que impedem o atendimento deste ser único, que se impõe concretamente pela manifestação física de sua presença reveladora do afeto, da alegria, da inteligência, da bondade; presença tantas vezes, infelizmente, reveladora do sofrimento, da tristeza, da desesperança, do medo, do desamor.

É preciso que todas as crianças, independente de terem nascido em berço de ouro ou na cama tosca, tenham a mesma atenção, recebam os mesmos cuidados, tenham as mesmas oportunidades de frequentarem creches e pré-escolas. E isto ainda não acontece, embora tenhamos de reconhecer que nas últimas décadas, programas governamentais e não governamentais começaram a se dirigir para a multidão de crianças oriundas de população de baixa renda, acolhendo-as para educá-las, em creches e pré-escolas.

Mas é preciso ampliar o número de creches e pré-escolas, ainda insuficiente para atender a todas as crianças. Perdemos muito tempo, descurando da educação infantil e as crianças estão aí. Na cidade grande, na periferia, nos morros habitados, nas dispersas áreas rurais, esperando que tudo façamos para melhorar seu presente e garantir-lhes um futuro promissor.

Diante delas, que precisam ser incluídas socialmente para que tenham suas necessidades básicas atendidas, não podemos ser os agentes do silêncio, não podemos nos calar diante da injusta discriminação que as atinge tão cedo. Creio que seja esta a melhor maneira de pensar nas crianças brasileiras, no Dia 12 de outubro a elas dedicado. Nas que tudo têm, sim, mas, sobretudo, naquelas que, de olhos ávidos e mãos estendidas, esperam que lhes sejam dadas as oportunidades que todas as crianças devem ter, assegurando-lhes um presente feliz e acenando-lhes com a perspectiva de um futuro promissor.