O cenário atual da Gestão em Saúde diante do momento vivenciado mundialmente, em todos os setores da economia, alavancado pela pandemia do novo Coronavírus estimula um repensar da gestão nessa área. Veja alguns pontos:

Dados relevantes sobre a mudança de cenário

Segundo Ibope, em 2019, praticamente metade dos brasileiros (47%) considerava o desemprego um dos três principais problemas do Brasil, seguido da saúde, mencionada por 41%. Através da disponibilidade das informações em relação a economia perante o cenário e a gravidade dos problemas enfrentados pelo país no ano de 2019, advindos de anos dificultou a escolha do que deveria ser priorizado em 2020. Entre as três principais prioridades apontadas pela população para o governo em 2020, quatro apareciam praticamente empatadas: “melhorar a qualidade da educação” e “promover a geração de empregos”, com 32% de menções cada, seguida de “combater a corrupção” e “melhorar os serviços de saúde” com 30% de menções cada uma.

De acordo com o levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), em parceria com uma organização não governamental, em outubro de 2020, o setor público gastou no ano 2019 R$ 3,83 per capita por dia com a saúde dos brasileiros. Incluindo neste valor todas as ações e serviços públicos de saúde declarados pelas três esferas de governo — municipal, estadual e federal. Neste estudo, foram contabilizados o custeio da rede de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) dentre outros. Então, o Brasil gasta R$ 3,83 ao dia com a saúde de cada habitante, o que pode ser considerado um subfinanciamento do setor, não havendo modificação do indicador há 12 anos, que permanece na casa dos R$ 3. Este possível subfinanciamento reflete em indicadores sanitários ruins.

Outro fator importante perante as perspectivas analisadas é a migração para o setor público da procura por atendimento na atenção básica. Em torno de 3,5 milhões de brasileiros se viram obrigados a saírem dos planos de saúde, principalmente a partir de 2014, devido ao aumento do desemprego e da não possibilidade de manter um plano privado particular.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, o Brasil está dentre os países sob o modelo de atendimento universal de saúde, como a Argentina, o Canadá, a Espanha, França e o Reino Unido, que tem o menor gasto per capita com saúde pelo setor público: US$ 389 anuais. Na Argentina, por exemplo, esse valor chega a US$ 959.

Gestão e Saúde

Complementando, o estudo do CFM aponta que a baixa presença do setor público nos gastos com saúde demonstra que o Brasil está longe de concretizar o modelo universal preconizado pela Constituição de 1988. O que se observa é que o sistema universal vem atuando e se mantendo com muita dificuldade, inclusive quanto às funções do enfrentamento pandêmico.

O recorte apresentado estabelece uma coerência em relação à precária observância do binômio Gestão e Saúde. O setor de saúde se desenha pela gestão mais complexa devido aos fatores determinantes e à interdependência com a realidade social, à inserção da economia com parâmetros de prioridades, no mínimo deficitário para realidade apresentada.

Inserção do Profissional de Administração na Gestão em Saúde

O Profissional de Administração em Saúde divide espaço com economistas, engenheiros e profissionais de outros ramos para tomada de decisão, às vezes aquém das competências necessárias para a gestão das unidades. Não há um espaço na mesa de negociação que viabilize a escuta dos profissionais de Administração, capacitados para dar as respostas a eles impostas pela competência. É importante a definição dos papéis dos gestores para essa máquina heterogênea, complexa, interdisciplinar e multiprofissional. Não é um lugar exclusivo de um profissional e sim de muitos profissionais capacitados e comprometidos com as políticas de saúde, com os processos da área, com os conhecimentos específicos em cada campo de atuação, dos protocolos e da interface com os órgãos competentes. Os espaços devem ser ocupados pelas expertises necessárias para a criação de valor num ambiente organizacional, com a cultura ainda voltada para o protagonismo médico, que tem sua grande importância na assistência e no tratar das patologias que surgem já na fase terciária da gestão. No entanto, a avaliação de todas as características das redes de atenção perpassa por uma uniformização de conhecimentos e saberes, além de políticas próprias para sua efetividade.

Características Organizacionais

Num ambiente organizacional encontram-se áreas das mais diversas que pactuam com a missão da organização quando o apoio à assistência se torna imprescindível para o sucesso e para geração de valor, independente do setor público ou privado.

Custo da falha ao não planejar

Quando se aborda a importância do planejamento estratégico em saúde, estamos mencionando uma função administrativa desconhecida por muitos técnicos, mas aplicável às diversas áreas da organização/empresa, com fulcro de equalizar estratégias que apoiarão a toma de decisão. Não é um instrumento de gestão, que para muitos pode significar modismo ou mais um trabalho desnecessário, mas uma ferramenta fundamental para a avaliação de resultados. Observa-se nesse processo o custo da falha muito maior em relação ao custo da prevenção e do planejamento.

Cuidar de quem cuida

A gestão com pessoas na área de saúde culmina na apropriação não só dos conhecimentos e habilidades, mas principalmente nas atitudes e na consideração de que as pessoas devem ser consideradas como os grandes responsáveis pelos processos. A forma de gerenciar essa área na saúde se diferencia das outras organizações/empresas. O gestor da área precisa atentar para tratar bem de quem cuida. Daí a necessidade de ter a visão da importância das políticas e instrumentos adequados de avaliação desses profissionais que na maioria das vezes tornam-se clientes/pacientes pelo estresse de conviver com o sofrimento e a dor constantemente. Deve ser considerada uma área extremamente estratégica de competência do Profissional de Administração capacitado para atuar na área de saúde.

Gestão sob fumaça

Outro ramo da Administração de serviços hospitalares é a preocupação com a estrutura física, a preocupação com os equipamentos, a atenção aos planos de manutenção que solidificam a segurança para quem precisa de um diagnóstico preciso, de um ambiente tranquilo, de um ajuste seguro para que a assistência seja prestada com efetividade. Ultimamente, estamos vivenciando uma “gestão sob fumaça” com incêndios em prédios hospitalares, cuja arquitetura não é o ideal para evitar sinistros de grande magnitude. São estruturas verticais de difícil evacuação da população da unidade, estruturas sucateadas e muitas vezes sem a devida preocupação dos gestores em entender que esta também é uma área estratégica para a organização/empresa. Muitas vezes não há profissionais experientes para tal atividade, cujo saldo quase sempre é negativo, perdendo-se vidas. Existem protocolos, porém não assimilados devido a outras prioridades na gestão dessas unidades.

Prevenção na gestão

Quando se menciona que no quadro de profissionais dessa organização/empresa tão complexa e heterogênea existem engenheiros (engenheiro civil, do trabalho e o clínico) entende-se que são profissionais com expertises diferentes, mas que se complementam de forma a minimizar os impactos negativos advindos da infraestrutura gerenciada sem o conhecimento, para manter a prevenção. Enfatizado aqui a figura do engenheiro clínico, uma especialidade não muito recente, que contribui muito na precisão diagnóstica para o tratamento médico, com a calibração de equipamentos, as manutenções preventivas, corretivas e preditivas, assim como na engenharia elétrica e civil das unidades.

Cuidado com o ambiente

Muito se assemelha quando se verifica a gestão de resíduos hospitalares, que apropria a necessidade de cuidar do meio ambiente e consequentemente da prevenção de contaminação. Há nesse processo, uma interface com os demais profissionais da unidade, como os enfermeiros, biólogos, farmacêuticos. Enfim, é um trabalho multiprofissional onde a educação continuada deve ser um fator de atenção dos gestores. Inclui-se ainda nesse processo a questão da responsabilidade social, quando atua com pacientes disseminando a informação sobre os resíduos hospitalares. Outro fator importante que o gestor deve se atentar é o preparo do descarte interno (abrigos provisórios) e externo do resíduo. Este não termina quando há entrega aos condutores contratados, mas na sua responsabilidade de onde está sendo o vazamento desses resíduos, como uma questão de responsabilidade solidária.

Cadeia de Suprimento e Logística Hospitalar

Em se falando em contratação, a cadeia de suprimento contribui para todo atendimento nas unidades de saúde, desde a aquisição até a chegada dos insumos para a assistência, passando pela saída das embalagens, em conformidade com as resoluções e a geração de resíduos, inserindo na logística hospitalar um grande avanço no gerenciamento das unidades com a logística reversa, voltada ao custo, ao tempo, à necessidade, ao desperdício, ao transporte interno e externo, aos protocolos específicos de responsabilidade da equipe com a participação efetiva do Profissional de Administração.

Hotelaria Hospitalar

Um macroprocesso que não deve ser negligenciado dentro das Unidades Hospitalares é o da Hotelaria Hospitalar. Esse macroprocesso sintetiza os processos de gestão administrativa, operacional e gerencial, dentro da visão da Unidade como um Sistema Aberto. Mantém os serviços de apoio que devem ser considerados de muita relevância para o bem-estar, conforto e atendimento das necessidades de cada paciente/cliente na continuidade do cuidado, como: limpeza, manutenção (predial, elétrica, clínica, conforto, ambiental), rouparia, em algumas unidades a Nutrição (uma questão de cultura), serviços de governança, portaria, zeladoria, segurança, telefonia e transporte (ambulância). Um macroprocesso semelhante a um hotel, com uma importante diferença: o hotel recebe clientes supostamente saudáveis e num hospital os clientes/pacientes são pessoas comprovadamente doentes. Outra diferenciação de hotel para hospital é a questão do foco de atendimento, num hotel o foco está relacionado ao hóspede (clientes) voltado para hospitalidade e no hospital relacionado também a hóspedes (clientes/pacientes) voltado para hospitalização, que devem ser tratados com humanização e quase que individualmente.

Qualidade da Gestão e segurança do paciente

Legitimando os processos, surge a necessidade da gestão pela qualidade com atributos de programas voltados para a gestão em geral e específico como as acreditações e certificações hospitalares, atuando com protocolos cumprindo as metas internacionais para a segurança do paciente, analisando eventos adversos e proporcionando capacitação de todos os profissionais, independentes de formação, mas que estejam no processo hospitalar atendendo normas, protocolos, critérios e padrões, voltados para a melhoria contínua.

Gestão da Informação e TI

Com a gestão profissionalizada da informação, que deve ser estratégica, não se encontra mais lugar para “achismos” e a tomada de decisão sem uma análise crítica que assegure a boa imagem da organização/empresa. Nasce aqui os profissionais de Tecnologia da Informação, que têm a função de auxílio aos gestores com sistemas que agilizem a informação, trazendo precisão, confiabilidade e segurança. Mais um profissional de interface no processo hospitalar.

Novas Tecnologias e Revolução Digital X Homem e Máquina

Com a inovação tecnológica na saúde acompanhando a revolução digital, como a Telemedicina, os equipamentos de alta geração para a precisão do diagnóstico e tratamento trazendo desafios quantitativos e qualitativos. Dependem de uma abordagem consciente de que não há volta. Porém é importante lembrar que uma unidade de saúde precisa atuar com a modernidade necessária e entender a importância entre a atuação do Homem e da Máquina, que se complementam, mas não se substituem.

O grande desafio

Neste ano em que parece que as formas de gerenciamento vêm se pautando por diversos fatores que impedem uma gestão planejada, compartilhada, há de ser capaz de pensar na Administração do caos. No entanto, organizada e coerente, quando se observa uma humanidade cansada, com medo e com pouca expectativa.

Assim nascem os profissionais responsáveis pela vida de muitos, que precisam ocupar seus espaços para que a Gestão em Saúde se fortaleça dentro dos princípios éticos da ciência da Administração estando em todas as organizações/empresas deste mercado.

Com certeza o assunto não se esgota quando a proposta é apontar a importância da Administração em Serviços de Saúde.

Referências:

Administração em saúde — Marinho Jorge Scarpi (org.) -2015

https://medicinasa.com.br/gasto-com-saude-brasil/#:~:text=Com%20base%20em%20dados%20da,%2C%20de%20US%24%20389%20anuais.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/03/setor-de-saude-ganha-peso-na-queda-do-pib-do-1o-semestre.ghtml

.com/noticias-e-pesquisas/principais-problemas-do-pais-e-prioridades-para-2020/