É claro que eu sabia que a perda de emprego também poderia acontecer comigo. Mas daí a pensar que um dia esse pesadelo me atingiria, vai uma enorme distância.

Como pode acontecer logo comigo, com todos os meus diplomas e credenciais, currículo profissional, experiência e resultados sempre reconhecidos, com tantos títulos conquistados ao longo de minha carreira?

Logo eu que sempre excedi os limites de missão, que dei tudo de mim, que “vesti a camisa”, sempre que convocado para resolver as mais difíceis crises, “pau para toda obra”, “não tinha tempo ruim”?

Mas aconteceu de repente num dia qualquer, justo no momento em que comemorava os meus 50 anos.

A minha empresa fez também comigo naquele dia o que já havia feito com alguns outros colegas: de uma hora para outra me botou no olho da rua, pela porta a fora. Desde então descubro horrorizado o que significa ser um desempregado em nosso País aos 50 anos.

Inicialmente, você nega para si mesmo a nova condição em que se encontra. Não acredita nela e a contesta: a minha empresa não podia fazer isso comigo! Logo eu que tudo fiz por ela, muitas vezes no sacrifício de minha família e de minha saúde! O seu mundo desaba: vai à knock out, mas fica de pé, acordado vive o pesadelo de não ter para onde ir ao se levantar todos os dias de manhã.

Você não compreende nem aceita a decisão de sua gerência, mas sobretudo se torna incompreensível a violência com que se dá a sua saída de empresa, anunciada aos outros bem antes do que a você. O discurso da franqueza e da autenticidade, do respeito e da privacidade, em que você sempre acreditou como um valor ético da organização, agora se desmoraliza: todos já sabiam de sua demissão muito antes de você, rigorosamente tratado como “o marido enganado – o último a saber”. Um cheque nominativo como bilhete azul do acerto de contas e nada mais!

“Por favor, nada de fazer onda”, é o que lhe diz o gerente de recursos humanos, que sempre gostou de ser chamado de “gerente de pessoas”, sob a justificativa de que ser humano não é recurso. E ai você, incrédulo, lhe responde: “tudo bem, isto é assim mesmo, nada de grave nem de pessoal. Eu logo estarei recolocado”. Doce ilusão!

Afinal, você sabe que tem currículo e uma excelente rede de relacionamentos. “É verdade, não há razão para se preocupar”, despede-se o gerente de recursos humanos com a sempre falsa cordialidade dessas horas.

E você diz para si mesmo: “é isso ai – é preciso virar a página!”

Então cheio de dinamismo e de pensamento positivo, como sempre lhe ensinaram nos treinamentos gerenciais de fins-de-semana oferecidos pela empresa, você parte em busca dos headhunters e das agências de colocação. Janta com os colegas de faculdade, almoça com todos aqueles com os quais se relacionou nos últimos anos. Responde aos anúncios de jornal, cadastra-se nos sites especializados de emprego, procura o banco de colocação de seu sindicato e os programas de empregabilidade existentes no mercado. E nada de conseguir uma colocação!

Você logo percebe que as respostas são evasivas, as oportunidades vagas, os almoços e jantares cada vez menos freqüentes. De repente, depara-se com a realidade. Um dos seus interlocutores secamente lhe diz a cruel verdade, que tanto você se recusava a enxergar: “o problema é a sua idade! Como você vai querer se recolocar se já atingiu a idade fatídica? Você agora é como um carro batido, ninguém se disporá a lhe contratar. O jeito é virar consultor”, sentencia. Mas este caminho, você bem o sabe, é o eufemismo codificado da linguagem profissional para dissimular o desemprego definitivo.

Justamente quando atinge o seu nível de maior maturidade profissional, em que está efetivamente pronto para oferecer o que tem de melhor de competência acumulada, você passa a integrar o grupo etário daqueles difíceis de contratar, ora porque ameaçam os contratantes muitas vezes menos qualificados de funções gerenciais, ora porque são pretensamente mais caros e exigentes, e ainda são acusados de baixa mobilidade e de refratários à mudança.

O mundo das organizações no Brasil com essa prática de “gestão de pessoas” joga os mais de 50 anos numa nova categoria de profissionais: agora você não é mais um colaborador, muito menos um recurso ou um ativo organizacional. Passa a ser um encargo. Para muitas, pior ainda: apenas um peso morto a ser extirpado da folha de pagamentos.

Como resistir a essas circunstâncias é o desafio que se coloca para cada um daqueles que vivem esse momento. Como sobreviver na longa trajetória que ainda têm de cumprir até chegarem à idade legal da efetiva aposentadoria?

Que cada um reencontre o seu caminho. Em verdade, um novo caminho bem acidentado, que se recusa a se deixar caminhar, cheio de obstáculos e de preconceitos.

E você, jovem profissional, que ainda vai viver mais duas ou três décadas para passar dos 50 anos, não duvide da inevitabilidade do ‘Efeito Orloff – “eu sou você amanhã”. Comece a desconstruir agora as circunstâncias que engendram a realidade que eu e muitos outros vivemos no cotidiano das organizações. Só assim amanha você não vai aumentar as estatísticas do que eu hoje sou – um desempregado sem lenço e sem documento, largado na beira do caminho.

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