“Alimentos Mais Caros E Na Mão De Poucos.” – Governo Quer Reforçar Cooperativas.

Artigo em resposta ao artigo publicado no jornal O Globo de 20-02-11. “Alimentos mais caros e na mão de poucos.” – Governo quer reforçar cooperativas. Este artigo em forma de ensaio servirá como as minhas considerações e contribuição para enriquecer o estudo e apresentar soluções para algumas perguntas que os entrevistados fizeram para enfrentar a concentração que ocorre hoje na comercialização de grãos e produtos da agroindústria. Daí eu vejo a causa de todos os males do oligopólio do setor alimentício no Brasil.

Na página 32 existem vários artigos, e vou começar pelo que tem a participação de Silvio Porto, diretor de Política Agrícola e Informações da CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, quando informa que o órgão tem estudos para combater a atual concentração econômica que hoje ocorre no agronegócio. Ele recomenda o investimento em associativismo e cooperativismo para reduzir o poder de mercado das tradings. A proposta da CONAB é a criação de armazéns nas áreas de consumo e não apenas na de produção de alimentos. Inclusive parte do plano já foi absorvido pelo governo federal e uma obra do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, acabou de construir um armazém em Uberlândia com capacidade de 100 mil toneladas. Minha opinião é que se trata de uma decisão acertada porque a região foi muito bem escolhida, pois lembro que em Uberlândia e Uberaba se encontram diversas mega distribuidoras de alimentos para micro, pequenos e médios mercados, além de abastecer parte das grandes redes de supermercados.

Decidi começar por ações de dois órgãos do governo, mas recomendo que as ações devam ser lideradas por instituições empresariais. Embora, ressalto que os empresários devam perceber a intenção estratégica do governo federal, como vimos no parágrafo anterior, o governo dá a direção de que ele quer atuar na eliminação da concentração econômica e também reduzir a pressão sobre os preços dos alimentos. Por isso, vou fazer as minhas propostas para que a iniciativa privada contribua com suas ações.

No texto principal, Concepcion Calpe da ONU/FAO cita que o mercado mundial de alimentos, sementes, fertilizantes e transgênicos é dominado por um pequeno grupo de empresas (C 10) e que no Brasil são quatro dessas tradings. Elas estão atuando em todas as fases da cadeia de produção: vendem sementes, adubos, defensivos agrícolas, compram os grãos, armazenam, fazem a extração de óleo, gordura e derivados, são as principais empresas exportadoras, financiam a cadeia de produção. Suas recomendações para a redução da atual alta dos preços dos alimentos são consistentes: o aumento da produção, o investimento em tecnologia e a inovação. Para o Brasil eu aposto na inovação, já que os dois primeiros itens os nossos produtores estão atendendo bem.

Segundo Kátia Abreu da CNA – Confederação Nacional de Agricultura são as quatro tradings que operam no Brasil que determinam quais quantidades de cada grão será plantado em cada safra pelos agricultores brasileiros. O poder de mercado dessas empresas é global. Elas tomam como critério as cotações da bolsa de Chicago e os estoques internacionais, além do que elas sabem o que foi ou será plantado nos outros países produtores. Então, por possuir as informações das quantidades de oferta e demanda mundial de sementes e adubo, já levam uma grande vantagem. No mesmo bloco de notícias, Gesner Oliveira, ex-presidente do CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica declarou que o Brasil e os países em todo o mundo não têm estrutura para se defender da concentração nesse mercado globalizado de alimentos. As regras de regulação de mercado de tradings não são claras e as que existem foram criadas no passado, antes dessa atual onda de globalização. Concordo com ele que a legislação ainda não contemple essa área. Minha dissertação de mestrado foi sobre regulação econômica de mercados, mas acredito que o CADE, SDE, SEAE deverão escrever nos próximos anos, ou já estão criando uma legislação que regule as tradings de alimentos. No meu parecer essa legislação deva ter a colaboração de alguns ex-presidentes e ex-conselheiros do CADE, tal como o Prof. Dr. Thompson Almeida Andrade que foi meu orientador da dissertação de mestrado, que contratados pelo governo federal deverão acelerar em muito os estudos da regularização das tradings.

Considerando que cada entidade apresentou uma sugestão para o problema, a mais crítica foi da CONAB, para que as cooperativas sejam fortalecidas e que possam enfrentar as tradings. Faço a seguir alguns complementos e sugestões.

(i)            Investimento do governo em infra-estrutura para escoar a safra de grãos. Estradas, ferrovias, hidrovias, portos. Hoje o PAC contempla essas obras.

(ii)          Apoio do BNDES com financiamento de longo prazo às indústrias fabricantes de silos para que elas possam vender às cooperativas, e assim elas possam estocar os grãos no campo. Cooperativas de produtores rurais estocando no campo e criação imediata de cooperativas de supermercados para estocar junto aos centros de consumo. A CNI – Confederação Nacional das Indústrias, principalmente FIESP e FIRJAN têm capacidade para apoiar as empresas do setor em obter recursos e financiamentos. Sindicatos da indústria da alimentação e metalúrgico podem colaborar em muito com essa inovação de processos que proponho. Drucker nos alertou para apoiar as empresas em APL e em clusters.

(iii)         Financiar as atuais cooperativas e incentivar a criação de novas e pequenas cooperativas com 25 a 30 associados para comprar silos, comprar e estocar grãos, treinamento, etc. A Confederação das Cooperativas do Brasil deverá ser o agente de fomento.

(iv)         BB e Caixa devem financiar cooperativas na compra, estoque e comercialização de sementes selecionadas. Financiar selecionadores e classificadores de sementes.

(v)          Governo, CADE e produtores rurais devem montar uma comissão de estudos para reduzir o poder de monopólio das tradings e reduzir a concentração do setor no médio prazo. Trata-se de uma inovação de produção, operações e logística no agronegócio que, sem subsídios, mas fruto do trabalho sério da iniciativa privada e todo o setor agropecuários do Brasil será beneficiado. (Com isso evita-se o retorno da antiga CIBRAZEM). Faço um alerta que todos os financiamentos aqui propostos devam ser garantidos com bens livres para penhora em caso de inadimplência, tal como é o contrato com uma trading com o produtor rural. Não podem ser admitidos calotes que seriam subsídios disfarçados. Mas deve estar previsto descontos ao bom pagador, o chamado rebate de hoje.

(vi)         Universidades Federais com cursos de Administração, os CRA´s devem lançar cursos tipo MBA de gestão de cooperativas, além de desenvolver P&D em inovação de processos e tecnológica aplicados à cadeia produtiva da alimentação. Pesquisas na otimização de transporte modal e armazenagem. Treinamentos em gestão de cooperativas. Sistema de escorecard de controle de cooperativas.

Para que as ações propostas enfraqueçam a atuação das tradings sobre os mercados no Brasil o governo precisa atuar através do BNDES, B. Brasil, Caixa e outros agentes de fomento para reforçar o apoio financeiro ao cooperativismo atual e que este exemplo seja levado às novas cooperativas que deverão ser criadas no futuro. Principalmente as cooperativas de 25 a 30 associados, quando cada produtor rural exerça a fiscalização do que é seu, isto é, sua cota como sócio e como seu grão será comercializado. Mas que faça tudo com transparência para que os grãos do Brasil não sejam considerados subsidiados, já que as tradings farão de tudo para quebrar a inovação de processos que iremos criar. É por isso que recomendo a liderança da iniciativa privada nesse projeto. Não precisa de fiscalização do dinheiro aplicado, porque quem não pagar terá o patrimônio como garantia. Nessas condições, a OMC não dará ganho de causa a nenhuma trading ou país.

Essas cooperativas irão garantir a armazenagem da produção no campo e as CoopSupermercado garantirão o estoque junto ao mercado consumidor. O objetivo será a eliminação das pressões sobre a inflação e o governo não terá tanta necessidade de agir como comprador e vender em leilão pela CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento. O mercado ficará pulverizado, e, mesmo com a participação das tradings, um novo mercado surgirá, e aí deverá conviver com uma nova regulação pelo CADE.

Quanto aos preços das commodities, elas continuarão a ser ditados pela bolsa de Chicago e preços internacionais. Só que, os grãos serão comercializados de forma fracionada e na mão de pequenas cooperativas, e é essa a solução que o artigo pediu, isto é, o pequeno e médio supermercado irá comprar o grão ao preço de Chicago, mas este preço é um preço muito menor do que aquele que o atravessador pratica e que é praticado pela trading. As boas margens ficam com as coopeprodutor e coopesupermercado e que por isso podem ofertar os grãos a preços menores para o consumidor, apesar de lucrarem muito mais do que hoje. Com esse lucro poderão pagar os silos e estoques do financiamento recebido do BNDES e BB. Assim ficará bem claro quem poderá ganhar e lucrar na cadeia produtora, tema que foi questionado no artigo.

No artigo do jornal O Globo a redatora Vivian Oswald ouviu um diretor da Bunge que declarou que seu lucro é de em torno de 1% sobre seu faturamento, o que dá a impressão de ser muito pouco. Embora existam custos de despesas quando ela compra e estoca. Mas existem os preços de venda quando a trading exporta. E são esses preços que precisam ser analisados, já que na maioria dos casos é a própria Bunge ou as empresas que fazem parte do grupo da trading, em alianças estratégicas, que fazem as compras no exterior do que ela mesma vende aqui. A todo o momento as tradings escolhem o país onde o lucro tem menor tributação. Será que algum setor do governo confere se o preço de venda do grão praticado pela trading para vender para o exterior é o mesmo que ela pratica para vender para o supermercado brasileiro?

O produtor no campo é o elo mais fraco da cadeia de produção dos alimentos no Brasil, mas é quem mais arrisca e é o que mais sofre com as incertezas. Enquanto que o governo, instituições sindicais e de fomento são os mais fortes. São os que têm a possibilidade de intervir e quebrar o monopólio e oligopólio das tradings existente no setor, devem agir com mais presença porque têm muito mais capacidade em técnicos, finanças, instituições de ensino, etc. E o CADE tem condição de regular o setor.

O produtor rural brasileiro tem em média pouca escolaridade, embora seja competente na gestão do seu agronegócio ou pequena propriedade agrícola familiar que é apoiada pelo PRONAF. Esse produtor tem filhos comprometidos com a produção da propriedade e outros que foram trabalhar na cidade e se formaram. Por outro lado o produtor rural também não sabe lidar como líder e diretor da cooperativa que é associado. Para ele a cooperativa é o lugar onde se entrega parte da produção, enquanto o restante da produção ele entrega na trading que sempre paga R$1,00 a R$2,00 a mais acima da cotação. Um erro duplo: por não fortalecer a sua cooperativa que pode lhe distribuir o lucro no fim do ano, mas sim fortalece seu rival, a trading que lucra e nunca vai lhe dar mais nada.

A inovação deve vir das instituições empresariais sindicais patronais: a CNA, a CNI, os Sindicatos Rurais, as Associação de Produtores Rurais, as Associação das Cooperativas do Brasil, etc.. Juntas, devem incentivar a criação de pequenas cooperativas de 25 a 30 associados para reverter esse quadro atual no Brasil. Vimos no artigo de O Globo que o governo está preocupado e está agindo, e cabe aos empresários inovar fazendo a sua parte de cima para baixo, isto é, um esforço vindo da instituição empresarial, que é a sociedade organizada, para beneficiar o agricultor que o elegeu seu representante no sindicato rural. Se for esperar pelo agricultor brasileiro, fraco e desprotegido, creio que nunca iremos reverter o atual oligopólio existente no setor de alimentos no Brasil.

A nova estratégia de inovação deve ser criada, articulada e executada por quem tem capacidade (recursos, processos e valores), isto é, empresários e governo. Devem esquecer subsídios, porque estamos lutando contra eles na OMC que beneficia os produtores rurais americanos e europeus. A inovação de processos tem que vir de ações de gestão estratégica empresarial, já que nas técnicas de plantio e manejo agrícola damos de goleada nos países produtores do mundo. Os agricultores precisam aprender a ser um sócio de uma cooperativa, a ser um diretor, um presidente. São ações de gestão empresarial que falta a eles e que o curso superior de administração está muito longe das propriedades e não temos tempo a perder. Mas todos assinam cheques, promissórias para retirar mercadorias nas tradings e pagam em dia seus compromissos. Então, o que falta é o agricultor ir fazendo junto com quem sabe, vai aprendendo em “marcha forçada” a usar suas habilidades para ir ganhando “prática em capacidade” de gestão da cooperativa. Vamos ao projeto de inovação.

(i)            Demonstrar e convencer o pequeno produtor rural que o sistema de cooperativa é a melhor forma para se comercializar a produção agrícola e pecuária. Utilizar como exemplo o sucesso das pequenas cooperativas e condomínios rurais hoje existentes. Fazer a demonstração do lucro que eles obtêm, como cada diretor exerce o seu cargo e como cada produtor fiscaliza a aplicação do investimento dos associados. Fazer visitas técnicas.

(ii)          A CNA / Sindicatos Rurais / Associação das Cooperativas, que são entidades empresariais iniciam planos de ações, planos de trabalho, projetos para captar recursos junto ao Ministério da Agricultura, FAO e outros fundos de recursos para desenvolver soluções para apoiar as atuais cooperativas existentes, sendo:

– Construção de silos e ceder em comodato para as cooperativas que estão atuando com sucesso.
– Compra de máquinas para ceder em comodato para as cooperativas. Máquinas de seleção e separação de grãos para venda e para sementes.
– Compra e venda de sementes selecionadas e classificadas. O mesmo para adubos e defensivos.
– Financiamento da estocagem de grãos para vender por melhores preços na entressafra.

(iii) Em conjunto com os esforços acima os empresários do CNA, Sindirural, Cooperativas, CNI, CRA´s, etc. escrevem projetos para o governo liberar recursos pelo BNDES, FINEP, BB, CAIXA, Banco Mundial, FAO, etc.

(iv)         O conjunto de entidades de empresários investe em convencer os pequenos e médios supermercadistas e agricultores do PRONAF a formar suas cooperativas ou condomínios regionais de 25 a 30 associados para a compra e armazenagem de safras e insumos. Agente de fomento FENACOOP e seus órgãos estaduais.

(v)          CNI e CNA incentivam e financiam, ou cedem em comodato, para que essas pequenas cooperativas construam silos regionais para segurar as safras nas regiões de plantio e que possam escoar a produção aos poucos, na entre safra, até os silos das cooperativas dos supermercados, nas regiões de consumo.

(vi)         O conjunto de entidades deve incentivar junto com o SENAT e demais órgãos do setor de transportes a criação de cooperativas regionais de caminhoneiros para que o ano inteiro faça o transporte das safras de grão, adubo, insumos e sementes.

Quando e se essas ações forem aplicadas, após alguns anos, os economistas de todo o mundo não irão entender como o Brasil conseguiu inovar para superar as tradings criando as suas super coopertradings de exportação para negociar a nossa produção de grãos, e que os recursos vieram não de subsídios, mas porque lucrou e se capitalizou com o crescimento do agronegócio das micro coopersupermercado, cooprodutor, cooptransporte todas com 25 a 30 sócios cooperativas de cooperativas e também sócias das coopertradings. O CADE já estará aplicando a legislação que regule o mercado de alimentos no Brasil. Uma cooperativa de administradores deve estar funcionando, coordenadas por cada CRA – Conselho Regional de Administração, para atuar como auditores independentes, com honorários pagos pelas cooperativas, para controlar suas ações e aplicação de recursos, e apresentar seus relatórios aos sócios e ao TCU – Tribunal de Contas de União.

Este artigo é o primeiro de uma série que farei com base em artigos de jornais e revistas que tratem do tema ligado a inflação de alimentos e as poderosas tradings. Espero que os órgãos do governo e entidades da iniciativa privada aproveitem o meu estudo / ensaio. Esse trabalho se apóia no meu conhecimento adquirido para obter o título de mestre em economia empresarial que acabei de conquistar na UCAM-RJ. Durante mais de 20 anos fui consultor da CNI – Confederação Nacional das Indústrias e assisti muitas empresas industriais em todo o Brasil e é por isso que acredito que através de seus sindicatos a FIESP / FIRJAN / SENAI terão espaço para colaborar no projeto. E também acredito que a CNA – Confederação Nacional da Agricultura também possa ajudar muito. Enquanto que o CRA poderá indicar o administrador para tratar da gestão onde ela for demandada.

Todos se lembram do caso DELL que há mais de 20 anos inovou ao montar PC numa garagem, eliminou o intermediário e hoje é um gigante. Pois o que proponho é a inovação de fundo de celeiro para que no futuro a pequena fazenda seja maior.

Autorizo sua reprodução com citação do autor. Estou remetendo uma cópia para O Globo, CNA, CONAB, CADE, CONSEA, CNI, CRA-RJ, CFA, FAO e outros órgãos citados.

Ms. Aloisio Pombo
Adm. CRA-RJ 1481     –      [email protected]

 

Sobre o autor

Aloisio Pombo

MSc. é consultor em gestão estratégica empresarial. Ministra aulas em MBA e Pós Graduação.

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