Mesmo antes da pandemia, algum defensor do acaso poderia prever um navio encalhado numa rota crucial que liga as fábricas da Ásia aos clientes abastados da Europa, assim como dos mais importantes para o transporte de petróleo? Dificilmente. No entanto, é o que assistimos há uma semana com o encalhe do navio Ever Given no Canal de Suez. Porém, a história por trás desse evento, e sua importância e impacto mundial, é bem mais complexa.

Sabe-se que as restrições ao comércio e a queda na demanda são confirmações importantes dos efeitos da pandemia. Com certeza, isso estimulou a Organização Mundial do Comércio (OMC) a prever uma retração das negociações globais entre 13% e 32% no ano. Essa previsão deixa as projeções do PIB mundial com forte tendência à queda.

As empresas, para atravessarem a queda no faturamento, aceleraram o processo de digitalização das economias, deixando os setores ligados à tecnologia com aumento considerável de demanda. Como consequência, o trabalho remoto viralizou ao redor do mundo, quebrando as barreiras para negociação de serviços.

Neste novo ambiente de comercialização, o conceito de produção just in time ganhou importância. Isto porque a teoria defende a produção de uma quantidade exata, ou o mais próximo possível da demanda. Com isso, reduz-se a necessidade de estoques gigantescos e, consequentemente, os gastos que esse armazenamento produz. E não há melhor lugar para utilizar o método just in time do que a internet e, posteriormente, sua distribuição através do transporte marítimo. Este pode ser o porquê de 85% das mercadorias do mundo serem transportadas por navios.

Ainda nesta seara, famílias passaram a gastar mais em produtos devido ao distanciamento social imposto pela pandemia, estimulando uma recuperação econômica rápida e a corrida pelos serviços de transportes.

Os principais destaques foram:

  1. O comércio de equipamentos médicos cresceu durante a pandemia. Obviamente, devido à alta demanda de diversos países de itens como respiradores e máscaras. A China liderou o fornecimento destes produtos, com as exportações associadas saltando de US$ 17,8 bilhões para US$ 54,6 bilhões;
  2. No Japão, as exportações de serviços ligados a TI ou telecomunicações cresceram 48,2% no ano. China e Alemanha tiveram 9,6% e 6,0% respectivamente de expansão na comercialização dos mesmos serviços.

Estes acontecimentos estimularam a indústria de transporte marítimo, que foi sobrecarregada pela pandemia e diversas demandas do comércio mundial. Essa dependência do comércio naval congestionou algumas vias marítimas, como o Canal de Suez, o Estreito de Malaca e o Canal do Panamá.

Então surge o Ever Given, um dos maiores navios porta contêineres do mundo, com espaço para 20 mil caixas de metal que transportam mercadorias pelo mar, que fez uma manobra e bloqueou o Canal de Suez — que fica no Egito e por onde passa 10% do comércio global -, impedindo a passagem de bens no valor de US$ 9,6 bilhões, segundo análise da Bloomberg.

Caso seu raciocínio encontre uma solução buscando rotas alternativas, aproveito para informar que segundo um relatório do Banco Mundial sobre pirataria somali, empresas pagam por ano US$ 53 milhões em resgates. As ações dos piratas chegaram a causar um prejuízo anual de US$ 18 bilhões ao comércio internacional.

No final, a estratégia do just in time levou as empresas a economizarem no estoque de bens e ignorou a gestão prudente dos estoques. Depois deste episódio, uma grande mudança irá acontecer para solucionar este problema de logística e abastecimento. Será a maior utilização dos drones? Será mais investimentos em processos de logística internacional? Ainda não temos essa resposta. Porém, temos uma certeza: o mercado irá responder de alguma forma ao impacto do Ever Given e teremos novidades para minimizar possíveis prejuízos de casos como esse no comércio mundial.