A profunda alteração do modelo econômico globalizado, de um capitalismo de produção, bem descrito por Marx, para um capitalismo de crédito e de consumo,ainda pouco percebido,  muito menos compreendido, joga por terra para a quase totalidade das pessoas empregadas nas organizações e, muito mais, para os desempregados temporários e os definitivos, os desejos e aspirações de construção de um “admirável novo mundo” de ócio criativo.

Ora, o conceito de ócio criativo aplicado, descrito por Domenico de Masi, sempre existiu na trajetória humana, porém sempre para uma minoria.

Ele não traz qualquer contribuição intelectual sobre este conceito, que já não tenha sido tratado, de forma muitíssimo mais profunda por muitos, desde os filósofos gregos e por todas as gerações filosóficas que lhes sucederam.

O que ele pretende é projetar uma sociedade mundial que se organize em torno do que chama de ócio criativo, ao qual pretende ser o formulador original, o que se constitui numa baita fraude intelectual. Que desfaçatez!

Vamos e convenhamos, vivemos a idade média do humanismo no mundo das organizações. O obscurantismo se faz pela incorporação de tecnologias sofisticadas à mentalidades e à praticas de gestão da época do carro de boi.

Como esse livro do Domenico de Masi já tem alguns bons anos, espero  que já tenha  revisto esse angelismo político, social, econômico e organizacional que permeia a  obra que tanto  entusiasmou gerações  de consultores e executivos crédulos, tal e qual, diz Luiz Affonso Romano, ao “O Monge e o Executivo”.

Fico feliz que alguns possam usufruir pessoalmente dos conceitos do ócio criativo. Bem, os epicuristas gregos também o fizeram. Mas eram poucos. Imagine se todos os gregos à época pudessem usufruir do epicurismo. Estariam no Nirvana, na Terra, e no mundo grego das arte,da cidadania e da cultura.

Mas pense, hoje, na quase totalidade das pessoas: será que as realidades em que vivem permitem-nas fazê-lo?

Como podemos projetar as nossas circunstâncias para o universo de realidade das pessoas em geral? Muitas vezes caímos na armadilha do angelismo, muito próprio de avaliações organizacionais circunscritas a amostragens não representativas do universo.

Só pode ser naive o raciocínio  de que o mundo de hoje e de um futuro próximo possam estar se organizando em torno do ócio criativo, que  conduza paulatinamente o ser humano à liberdade, à cultura, ao desenvolvimento espiritual, vale dizer ao Humanismo, para a universo, ou pelo menos para a sua maioria da humanidade.

Uma sociedade que se organiza dominantemente em torno do econômico não tem este valor no seu Código de Ética e no seu comportamento moral.

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