É possível conciliar ética e lucro? Parte IV

“Ao ingressarem no mundo do trabalho as pessoas fraturam o seu comportamento ao conviverem simultaneamente com as imposições de duas éticas distintas e ambivalentes: a ética de convicções e a ética de resultados”

Há muitas maneiras de se mentir no mundo das organizações, como, de resto, na vida em geral.

Você pode fazer afirmações que não são verdadeiras, superestimar ou subestimar circunstâncias e situações, reter informações que deveriam ser compartilhadas, distorcer fatos de seu interesse, contar meias verdades que redundam em mentiras dissimuladas com aparência de verdade.

Mas há uma só maneira de se dizer a verdade. A prática da ética nas organizações requer convicção, vontade política e competências adequadas para tornar as ações empresariais concretas e objetivas, minimizando as resistências e as incompreensões.

Frequentemente, o mundo dos negócios ressente-se das referidas convicções, de vontade política e das adequadas competências. A atividade empresarial reconhece, valoriza e recompensa os resultados, e não as convicções.

Suborno, espionagem industrial ou caixa 2 são práticas aéticas e ilegais, mas o que dizer da prática de embutir custos por fora nos preços anunciados ou das letras deliberadamente diminutas constantes nos contratos para induzir o incauto à desinformação? São essas práticas éticas?

Se os concorrentes as utilizam, você também está plenamente justificado por fazer o mesmo? Ou, na verdade, são apenas desculpas esfarrapadas para as mesmas práticas aéticas?

É quase um lugar-comum a afirmativa de que se pode muito bem mentir com as estatísticas, pois, dependendo da forma como os números e gráficos são apresentados, causam percepções inteiramente diversas. Como você se comporta quando instado por sua gerência a fazer isso?

Você já vendeu um carro sem apresentar ao novo dono os defeitos que o fizeram vender? Ou o seu comportamento varia ao vendê-lo para um comprador particular ou para uma agência de automóveis? A sua ética é relativizada em função do interlocutor?

As organizações, assim como, individualmente, as pessoas que as integram, precisam estabelecer e seguir diretrizes e parâmetros de comportamentos e de atividades como referências para as suas ações. Abandonar a busca pela promoção do lucro a qualquer custo e o uso das justificativas trapaceiras de que os fins justificam os meios, certamente balizarão desempenhos organizacionais e individuais bem mais éticos.

Em geral, as pessoas de forma inconsciente convivem com duas éticas, simultaneamente, – a ética individual, como pessoa física, e a ética coletiva ou empresarial – no desempenho de papéis e funções organizacionais.

As pessoas compartilham e seguem ideias quando há um clima de confiança mútua e de franqueza que as permite prosperar. No entanto, muitos dos mais caros fundamentos de confiança e de credibilidade têm sido desgastados pelo alucinante processo de mudanças econômica e social a que somos todos submetidos nestes turbulentos tempos de globalização.

Organizações sólidas e tradicionais, consagradas por décadas e décadas de sucesso e de credibilidade, também sofrem verdadeiros abalos sísmicos, quando não profundas crises de confiança e de imagem junto à opinião pública.

O sistema político, então, nem se fala. É generalizadamente tratado com descrença e cinismo.

Tudo isto nos conduz inelutavelmente à necessidade imperiosa do desenvolvimento de uma verdadeira onda de transformação nas instituições públicas e privadas, com vistas a dotá-las de um maior nível de confiabilidade e de credibilidade no conjunto da sociedade.

Na medida em que o caráter da economia continuar a evoluir em direção a uma produção crescentemente globalizada e à valorização exponencial do comércio de bens e serviços, mais necessidades terão as organizações de ostentar confiabilidade e credibilidade junto aos seus mais diferentes interlocutores. Quanto mais a divisão internacional do trabalho expandir-se, mais dependeremos de bens e produtos que sequer compreendemos como são produzidos, cujas origens vêm de longínquas fábricas estrangeiras, localizadas em países que mal conseguimos identificar nos mapas.

O empreendedorismo, viés moderno e inovador da nova economia, somente floresce quando protegido por altas taxas de tolerância e compreensão para o fracasso não desejado, quando há confiança nas pessoas para que elas possam aprender com o erro, incorporar aprendizagens por meio da experiência, sentir-se livres para começar de novo, tentar mais uma, duas ou mais vezes.

Adm. Wagner Siqueira
CRA-RJ nº 01-02903-7
Presidente

Sobre o autor

Wagner Siqueira

Wagner Siqueira é Administrador atuante, com uma longa trajetória de trabalho dedicado à profissão, e filho de Belmiro Siqueira, Patrono da profissão no Brasil. Foi Presidente do Conselho Federal de Administração e do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro. Foi Secretário de Administração da Prefeitura do Rio de Janeiro, Presidente do Riocentro e Secretário de Desenvolvimento Social da Prefeitura do Rio, alem de exercer muitos outros cargos na Administração pública e privada.

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