São 61 bilhões de motivos para preocupação: o orçamento federal a toque de caixa
Como sempre acontece, o Congresso Nacional aprovou o orçamento para o ano eleitoral de 2026 no último dia da legislatura. Não houve tempo e muito menos interesse para uma discussão aprofundada da matéria. Na votação, a toque de caixa prevaleceram os interesses do poder executivo e dos parlamentares, em detrimento das reais necessidades da população brasileira.
Desde a adoção do orçamento secreto os parlamentares estão buscando fortalecer suas bases eleitorais, não apenas por meio de projetos para melhorar as condições de vida em estados e municípios, mas para de alguma forma transformar dinheiro em votos, por meios lícitos e ilícitos.
As emendas parlamentares são alvos de processos no Supremo Tribunal Federal, onde o ministro Flávio Dino vem barrando várias tentativas de uso indevido desses recursos. Mas nem assim os parlamentares desistiram de incluir no orçamento um volume de dinheiro tão grande que irá afetar diretamente a gestão do poder executivo, principalmente no que se refere aos programas sociais.
O total destinado às emendas parlamentares subiu de 42 bilhões de reais, o que já era um exagero, para 61 bilhões, aumento de mais de 20%. Nada no país teve acréscimo desse porte em um ano. E para agravar ainda mais a situação, determinaram que 75% desse dinheiro deverá ser liberado até o meio do ano, ou seja, antes da eleição.

Para atender à demanda dos parlamentares o Governo Federal terá que cortar recursos de áreas importantes, como meio ambiente, universidades federais, programas sociais como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, além de saúde e educação. Com certeza sobrarão parcos recursos para investimentos, da mesma forma que haverá dinheiro a rodo para obras paroquiais e compra
de votos por parte de deputados e senadores.
Para que seja viável uma gestão pública eficiente, é preciso que tanto o executivo quanto o legislativo no Brasil passem a encarar o orçamento como uma bíblia a ser seguida e não como um documento passível de ser atropelado por interesses muitas vezes nada republicanos.
* Adm. Wagner Siqueira é presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de ser autor de livros sobre gestão.