A frase título deste artigo é de Benjamin Franklin, foi dita por volta de 1750 e tem validade para nações, empresas, pessoas e times de futebol. Mas o que deve ser entendido é que a preparação é uma fase do processo administrativo que visa à obtenção de resultados, e que é constituído por três etapas: preparação, execução e controle e avaliação, ou seja, antes, durante e depois da Copa.

O maior vexame e humilhação do futebol brasileiro foi fruto de uma péssima preparação e de uma execução igualmente catastrófica. Mas ainda resta o controle e avaliação, e é nesta etapa que se realizam aprendizados, corrigem-se os erros e se projeta o futuro. Portanto, a grande questão é saber se esta etapa será feita com maior qualidade ou se serão cometidos e repetidos os mesmos erros que fizeram com que as etapas de preparação e execução redundassem num completo fiasco. E neste caso, o ciclo da derrota estará completo, pois a mais completa das derrotas é quando não se aprende nada com o fracasso. E tudo deve começar com um ótimo diagnóstico para que se evitem conclusões simplórias e equivocadas e, pior do que isto, se deem soluções que apenas vão agravar o problema. Em suma, é preciso seguir o processo de solução de problemas, que vale para a administração, medicina, engenharia, time de futebol, ou seja lá para o que for.

Mas para que se possa compreender melhor as etapas do processo administrativo, vamos precisar recorrer a Peter Drucker, o chamado guru dos gurus da administração. Drucker tinha a grande virtude de ser simples e saber ver o óbvio. Assim, constatou que “o produto final do trabalho de um administrador são decisões e ações”, e se decide e age na preparação, na execução e no controle e avaliação. E existem muitos pecados capitais, que fazem com que o processo de decisão e ação redunde em completo fiasco, entre eles os seguintes:

  1. Análise superficial em que não se buscam todos os fatos e não se compreende adequadamente a situação, produzindo a chamada avaliação precipitada. E a regra básica é: primeiro compreender e só depois encontrar a solução;
  2. Tomada de decisão apressada, sem que se estude as alternativas existentes, desconsiderando-se que toda alternativa tem pontos fortes e pontos fracos e que uma solução é tão boa quanto a melhor alternativa que se conseguiu encontrar. Igualmente não se definem ou se define equivocadamente os critérios que devem embasar a decisão;
  3. Justificativa e defesa cega da decisão tomada e dos erros cometidos. E aí vamos ter explicações, entre outras, como a do apagão de 10 minutos ou da falta de humildade, na base de que a versão é mais importante que os fatos.

Assim, vamos nos deter em alguns pontos fundamentais do processo administrativo.

1) A PREPARAÇÃO

Algo básico para uma boa preparação é uma visão holística ou sistêmica, que se opõe às visões fragmentadas ou parciais. Portanto, é preciso identificar todos os fatores necessários e suficientes para que se tenha sucesso a começar por um ótimo checklist, também conhecido como mecanismo à prova de bobeira. E uma coisa básica é a liderança e, no caso de um time de futebol, o treinador. Escolher um treinador inadequado é como uma empresa que escolhe um mau CEO, ou executivo chefe. E um mau CEO pode levar uma empresa à falência, da mesma forma que um treinador inadequado pode levar um time de futebol para derrotas humilhantes.

Uma boa preparação está baseada em dois pontos:

  1. No conhecimento dos princípios básico da excelência
  2. Na aplicação efetiva destes princípios, em função das competências individuais e de equipe

Alguns princípios básicos da excelência em futebol:

  • Princípio Fundamental: defesa brilhante, ataque fulminante

Times que só pensam no ataque podem ter surpresas muito negativas. Um dos maiores exemplos foi a seleção húngara que disputou a Copa de 1954, que tinha entre outros craques, Puskas. O time dava goleadas impressionantes, mas na última partida foi derrotado pela Alemanha por 3×2, mesmo tendo começado vencendo por 2×0. Alias foi o mesmo placar do jogo com que o ótimo time do Brasil foi derrotado pela Itália em 1982. Igualmente, não adianta ficar só se defendendo sem preocupação com o ataque, algo que se vê em muitos times que querem apenas manter um resultado favorável e que acabam sendo derrotados;

  • O resultado depende da inteligência competitiva

E para isto é necessário harmonizar os talentos individuais com a competência de equipe e com o conhecimento do adversário. Vale lembrar Sun Tzu: “Se você conhece o inimigo e a si próprio, não é preciso temer nenhuma batalha; se você conhece a si mas não conhece o inimigo, para cada vitória haverá uma derrota; se você não conhece nem a si nem o inimigo, você irá sucumbir em todas as batalhas”.

O que deve ser entendido na etapa de preparação é que devem ser convocados os jogadores que estiverem nas melhores condições no momento em que a Copa for acontecer. Assim, é um erro convocar um jogador pelo fato dele ter sido campeão na Copa das Confederações, ainda mais que se sabe que até o presente, nenhuma seleção vencedora desta Copa foi campeã do mundo. Portanto, é preciso convocar os 23 jogadores que possam estar na melhor forma e Felipão chegou a admitir que errou na convocação de pelo menos um. Seria tão somente um ou é difícil admitir que outros erros foram cometidos? E uma das características de um bom líder é identificar e resolver o problema chave e tomar a decisão certa, mesmo que seja a mais difícil e dolorosa. Assim, não se pode convocar um jogador que tenha caído radicalmente de produção alegando sentimento de lealdade pelo fato do jogador ter feito parte da equipe que venceu a Copa das Confederações.

  • Sempre existe risco

Como disse o Prêmio Nobel Ilya Prigogine, “a era da certeza acabou”. Portanto, uma equipe deve estar preparada para o que der e vier. Preparar uma equipe pressupondo que “na hora o Neymar vai resolver tudo” é desconhecer que mesmo os maiores craques têm seus momentos ou mesmo dias de perna de pau e acabam cometendo erros incríveis. Além disto, podem se lesionar, como foi o caso de Pelé na Copa de 1962.

  • Time que está ganhando se mexe ou não

Tudo depende das circunstâncias, do momento, do adversário e do estado físico, mental e emocional dos jogadores

  • O princípio da equifinalidade. Existem muitos caminhos que levam à Roma

Assim sendo, existem cinco palavras fundamentais que são: perceber, compreender, avaliar, decidir e agir. E um bom treinador deve estar atento aos sinais. Portanto, técnico que só percebe a tempestade quando ela já passou ou que não sabe o que fazer durante as circunstâncias do jogo, não pode ser técnico da seleção.

Sem muito treino, e treino inteligente, não se adquire ou se mantém competência

E duas coisas são importantes: primeiro, o local da concentração e preparação. Segundo, o tempo de preparação. Em 1950 uma das razões do fracasso brasileiro foi que na partida final contra o Uruguai, a concentração da seleção havia virado um palco de exibição de políticos, artistas e torcedores. E este mesmo erro foi repetido em outras ocasiões. Os jogadores precisam estar focados na competição. O tempo de preparação deve ser de aproximadamente dois meses. Exceção pode ser feita quando a seleção é formada basicamente por jogadores de um ou dois times. As seleções brasileiras de 1958 e 1962 tinham na sua espinha dorsal jogadores do Botafogo e do Santos. A seleção espanhola de 2010 era formada por jogadores do Barcelona e do Real Madrid. A seleção alemã de 2014 teve como base jogadores do Bayern de Munique, o mesmo time que, diga-se de passagem, havia sido goleado pelo Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões. Perdeu de 4 x 0.

2) A EXECUÇÃO

A fase de execução começou com o início dos jogos da Copa. E aí surge a questão das características de um bom técnico. Há quem diga que precisa ser um estudioso, conhecer bem o futebol disputado em outros países e estar atualizado com o desempenho de todos os atletas nacionais ao redor do mundo. E isto pode ser uma condição necessária, mas está longe de ser suficiente e a principal. A principal é a capacidade de suportar a tensão, o estresse, as adversidades e a pressão, que numa Copa do Mundo são imensas. Técnico que não suporta a pressão vai decidir e agir de forma equivocada. E quanto mais tensa e estressada estiver uma pessoa, mais ela tende a repetir os mesmos erros. E a insistente escalação de Fred é uma prova disto. Isto sem considerar declarações completamente estapafúrdias de Felipão, inclusive chamando jornalistas para denunciar que havia um complô da FIFA contra a seleção brasileira.

Assim, vale recorrer a Tim Gallwey que é considerado um dos pais do coaching. Gallwey era treinador de tênis e constatou que todo jogador tem dois adversários: o adversário externo e ao adversário interno e quem perde o jogo interno também perde o jogo externo. E tanto Felipão, como sua comissão técnica e os jogares perderam o jogo interno e, consequentemente, o jogo externo. E uma prova disto foi o capitão Thiago Silva, na hora da cobrança dos pênaltis contra o Chile, em vez de dar força aos companheiros, ficou isolado, sentado em cima da bola, completamente desolado. Quanta diferença de Didi na Copa de 1958 na Suécia. Quando os suecos fizeram o primeiro gol da partida, Didi foi buscar a bola no fundo das redes de Gilmar e calmamente foi caminhando até o centro do campo para recomeçar tudo novamente. Resultado: Brasil 5 x 2. E quando a Alemanha fez o primeiro gol foi um desastre, 7 x 1. Havia algo de muito errado com esta seleção.

Também nesta etapa é fundamental escolher a tática de jogo. A Alemanha teve um placar dilatado contra o Brasil e Portugal. Contra Portugal, uma das razões foi a postura antiesportiva do zagueiro Pepe que deu uma cabeçada num jogador alemão caído e foi expulso. Nos outros resultados, houve empate de 2×2 com Gana, e diferenças de um gol contra os E.U.A, França, Argélia e Argentina, sendo que a Argentina poderia perfeitamente ter ganhado, pois perdeu três chances incríveis de gol, sendo que numa delas em função de um erro grosseiro de um defensor alemão, que atrasou mal a bola e deixou o atacante argentino livre na frente do goleiro. E que táticas os times que empataram ou perderam de pouco usaram? Primeiro a defesa e depois o contra ataque. E que tática Felipão usou? Vamos jogar de igual para igual e escalou Bernard fragilizando o meio campo. E aqui surge uma questão fundamental. Warren Buffet, um dos maiores megabilionários do mundo quando perguntado sobre a razão do seu sucesso respondeu que ela se devia a sua capacidade de avaliação. Pena que Felipão não tenha lido nada sobre Buffet.

3) O CONTROLE E AVALIAÇÃO

Esta é a fase do pós Copa, ou seja, a fase em que estamos atualmente. Será que vamos aprender ou cometer os mesmos erros? E esta é uma fase extremamente difícil pois os verdadeiros responsáveis não costumam admitir os seus erros e arranjam falsos culpados. O fato é que a escolha dos três últimos técnicos, ou seja, 2006, 2010 e 2014, foi equivocada. E como se sabe disto? Pelo desempenho das equipes e pelos consequentes resultados. Ou como diz uma expressão bíblica: “Pelos frutos conhecereis a árvore”.

Parreira foi o técnico em 2006. Um fracasso, a ponto de Franz Beckenbauer ter concluído que aquela havia sido a pior seleção brasileira dos últimos 50 anos. Mas é sempre possível piorar. O que é interessante é que antes da Copa, Parreira havia se tornado palestrante de sucesso sobre liderança e motivação. Seu livro, “Formando Equipes Vencedoras. Lições de liderança e motivação: do esporte aos negócios”, chegou a figurar na lista dos mais vendidos. Mas quando chegou a hora da verdade foi o que se viu.

Mas o que é extremamente revelador do processo decisório da CBF foi a escolha de Dunga em 2010, posto que Dunga nunca havia sido treinador de futebol, ou seja, não havia passado pelo teste ácido da prática. Pergunta: quais foram os critérios de decisão usados na escolha de Dunga? Houve algum ou foi na base do achismo?

Em 2014, Felipão e sua comissão técnica fracassaram, não resta a menor dúvida. Mas é verdade que Felipão foi bastante competente na Copa de 2002. Entretanto, nos últimos tempos alguns fatos preocupantes estavam acontecendo na sua carreira. Em 2008 foi treinar o time inglês do Chelsea e não foi bem. Depois de uma série de resultados considerados ruins pela diretoria do Chelsea, acabou sendo demitido pelo time londrino, em fevereiro de 2009. E pior do que isto, é que foi o treinador responsável pela queda do Palmeiras para a 2ª divisão do Campeonato Brasileiro. E aqui vem algo fundamental em termos de processo decisório: o sucesso no passado não é garantia de sucesso no futuro e até pelo contrário, as práticas que deram certo num determinado contexto podem ser o caminho do fracasso em outro. E o mesmo vale para os jogadores. O campeão de um ano pode ser a razão do fracasso em outro.

Assim, o que deve ser entendido é que a essência do fracasso não está nos jogadores, pois não foram eles que se convocaram e se escalaram. E com certeza, haviam jogadores melhores do que alguns dos 23 selecionados e que não foram lembrados. Portanto, técnico que culpa os jogadores está apenas dando um desculpa para o seu fracasso. A razão do fracasso também não está nos técnicos, pois não foram eles que se escolheram. Assim, um dirigente da CBF dar declarações de que o Felipão está ultrapassado é um verdadeiro nonsense, posto que não foi ele que impôs o seu nome como técnico. O que está ultrapassado e a essência do fracasso está no alto comando, no nível estratégico, ou seja, na presidência e direção da CBF e na sua competência para tomar decisões. Qualquer empresa que fosse dirigida com os mesmos padrões utilizados por quem dirige a CBF já tinha quebrado. O fato é que exercer o poder sem ter competência é o caminho do desastre e do fracasso.

Conclusão

Tem solução? Claro que sim. Mas para isto, é fundamental diagnosticar a situação. É como na medicina: Um médico que faz um diagnóstico errado ou dá o remédio errado, pode matar ou provocar graves danos ao paciente. É o chamado tratamento iatrogênico. Assim, talvez fosse importante criar um grupo de trabalho para estudar a questão do futebol brasileiro em que dois tipos de competências são necessárias: entender de futebol e de administração, sobretudo de processo decisório, solução de problemas e também de dinâmica de grupo. Existe um estudo de Irving Janis sobre fiascos históricos americanos, como as guerras da Coréia e do Vietnam e a invasão da Baia dos Porcos em Cuba, que mostra que pessoas inteligentes e competentes, quando decidem em grupo, podem cometer erros de grande magnitude. Estas pessoas foram vítimas daquilo que Janis designou por “pensamento grupal”.

Caso não se tenha competência para diagnosticar e resolver problemas, tomar e implementar decisões, só resta mesmo rezar. Quem sabe Deus seja mesmo brasileiro e então possam surgir novos Pelés, Garrinchas e Didis.