*Leonardo Carap

A revolução digital que tem tomado conta de todos os setores da economia exerce forte influência também no Setor Saúde. Neste, entretanto, a complexidade obriga à adoção de processos adaptativos especiais para que a oferta de serviços aos pacientes se dê de forma segura. Ou seja, as soluções não podem ser aplicadas da mesma forma que na administração comercial, por exemplo. Assim, a gestão das complexas organizações de saúde, que é, por si só, um capítulo à parte na história da administração, recebe os avanços das tecnologias de informação como contribuições altamente positivas, sem dúvida alguma, mas que também demandam maiores cuidados, especialmente no tocante à segurança do paciente e à preservação da sua privacidade e sigilo dos dados e informações.

O uso de Big Data e Data Analytics, apoiados por Internet das Coisas, Aplicativos de Engajamento do Paciente, Telemedicina e Inteligência Artificial, quando aplicados aos Processos Assistenciais e Administrativos serão parte importante do ferramental capaz de melhorar o processo decisório, com reflexos positivos nos serviços oferecidos, na segurança dos pacientes, na sua qualidade de vida, nos desfechos clínicos e nos resultados administrativos indispensáveis para o fortalecimento das Organizações.

Como um exemplo bem marcante dessa potencialidade, percebe-se, de forma cristalina, a oportunidade de realizar a gestão do SUS do modo como esse foi pensado, trazendo respostas concretas aos desafios que se acumularam, especialmente no âmbito da sua gestão administrativa e da mandatória integração entre assistência e administração como fator crítico de sucesso. Ao que tudo indica, o ferramental alcançou, finalmente, a capacidade de realização dos ideais sonhados pelos formuladores, possibilitando a gestão efetiva desse complexo sistema de saúde voltado a mais de 200 milhões de pessoas que habitam um país de dimensões continentais.

Modelos de gestão assistencial e administrativa aplicados a um sistema organizado em Redes de Atenção à Saúde com orientação para a centralidade do paciente como valor precípuo, com investimento na capacitação dos profissionais de saúde e de administração para a sua efetiva gestão é a evolução natural esperável para compor de forma inequívoca a Gestão da Saúde Populacional com Atenção Integral à Saúde.

Até aqui, entretanto, a estruturação dos serviços de saúde em redes poliárquicas, buscando abranger as linhas de cuidado e todas as demais estratégias pensadas para alcançar a integralidade da atenção oferecida à sociedade e seus cidadãos, tem sofrido reveses e dificuldades para uma implementação satisfatória. Ainda fortemente fragmentados em sua gestão, tanto assistencial quanto administrativa, esses serviços poderão, afinal, receber a “liga tecnológica” necessária para que a organização do sistema e a criação de redes se dê com geração de valor para todos os grupos de interesse, especialmente os pacientes, controladores e financiadores.

A experiência do paciente em sua jornada, desde o primeiro acesso para entrada no sistema e atendimento às suas necessidades de saúde, atenção e assistência recebidas nos serviços de saúde, ganha ainda mais importância. O paciente será cada vez mais o protagonista do sistema, a sua figura central. Considerando a afirmativa de Piaget de que só um humano pode curar outro
humano, imagina-se que a abordagem humanizada da atenção à saúde que é perseguida por todos e alvo de inúmeras publicações, deveria ser um fator implícito e já pacificado no Sistema de Saúde. E, se ainda não o é, qual impacto será esperado nos serviços e sistemas de saúde sob transformação digital para que a questão da “humanização da atenção prestada por humanos” possa ser resolvida?

Por mais paradoxal que possa parecer, o tema da humanização na saúde, que há duas décadas se apresenta como desafio, receberá da tecnologia (se assim for o desejo dos players) os subsídios necessários para que se torne uma realidade. Qual significado poderá ter isso na transformação das relações entre os pacientes e os profissionais de saúde? Os defensores e estudiosos da telemedicina, já agora denominada Medicina 5.0, têm se desdobrado e tomado todos os cuidados para que essas questões tenham uma resposta satisfatória frente aos anseios da sociedade e das diretrizes que norteiam essas relações. Os profissionais de hoje poderão fazer essa transição adequando seus paradigmas às novas tecnologias.

Entretanto, no futuro, qual será o comportamento dos profissionais de saúde em suas relações com os pacientes “remotos”? E os administradores de suas organizações, ainda mais complexas e com novas fragilidades possíveis? Sob quais paradigmas atuarão e serão avaliados? Frente às sucessivas revoluções tecnológicas, a utilização dos artefatos de gestão administrativa pelo setor saúde deu lugar à apropriação de artefatos de gestão das tecnologias de informação e comunicação de forma cada vez mais intensa, o que tem forçado o sistema e seus atores a olhar para novos horizontes e desenvolver saberes compatíveis com as expectativas da sociedade e seus membros.

Conforme é sabido, novos problemas e novos desafios tensionam antigos paradigmas, que deverão ser refeitos e substituídos, podendo por vezes até incorporar alguma coisa dos antigos, em busca de ajustes. Segundo explicitado por Kuhn, os paradigmas contêm os elementos da sua própria destruição, que se fazem patentes na medida que não conseguem impedir o progresso que se avizinha. Entretanto, no processo de destruição, podem incorporar parte de si mesmos ao novo paradigma, ampliando as boas perspectivas e dando início a um ciclo virtuoso. Assim, surgirão paradigmas voltados a, entre outras coisas, permitir o desenvolvimento de guias de conduta que criem ajustes entre as necessidades, expectativas e desejos dos novos clientes digitais. Isso irá demandar o desenvolvimento de novas competências pelos profissionais de saúde e de administração frente às particularidades agregadas às Organizações. Políticas, planos, diretrizes e objetivos deverão orientar essas organizações na geração de valor para a sociedade, pacientes, financiadores e controladores.

Quanto aos novos profissionais de saúde e de administração dos complexos sistemas de atenção à saúde e assistência médico-hospitalar, sejam esses públicos ou privados, o seu perfil ainda não está claramente definido frente às novas necessidades. Espera-se que guardem em si o mínimo da humanização propugnada pelos postulados e paradigmas antigos, devendo estar aptos a desenvolver e manter a relação de intimidade com seus pacientes, quando couber, preservando o necessário sigilo e conquistando a sua confiança. Poderão assim preservar e fortalecer, em adição aos ganhos trazidos por toda a evolução das revoluções e dos algoritmos, a sua humana e ímpar condição de: ‘‘Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre’’.

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*Leonardo Carap é membro da Comissão Especial de Administração em Serviços de Saúde do CRA-RJ.