O mercado profissional tem passado por uma transformação até certo ponto silenciosa, mas significativa. Entre o final do século passado e começo deste século, pôde-se observar algumas importantes alterações na interação mercado x academia no que tange a formação profissional dos profissionais de Administração.

Naquela época, ao se conversar com os gestores das empresas, poderíamos facilmente verificar as preferências por formações — abre aspas — “acadêmicas sólidas”, tendo-se por pressuposto que tais competências viriam apenas pelo conhecimento advindo das páginas decoradas dos livros e medidas em questões de prova que testassem a capacidade dos alunos de memorizar conteúdos e respostas. A partir deste pressuposto de qualidade — conteúdos decorados x resultados nas provas, a sala de aula trabalharia na perspectiva do C.H.A. (Conhecimentos-Habilidades-Atitudes), desenvolvendo prioritariamente ou somente os conhecimentos (saber). Ficava então, as habilidades (saber fazer) e as atitudes (saber ser e conviver), a cargo do desenvolvimento do profissional a partir de seu ingresso no mercado de trabalho.

Porém, em contradição a esta questão explicitada acima, havia um conceito implícito de que alunos de instituições públicas tinham, mais sólida formação profissional por possuírem menos recursos para estudar. Por muitas vezes pudemos escutar, ao longo daquela época, gestores dizendo que os alunos das instituições públicas tinham sua preferência nas seleções, porque “tinham que se virar” e isto os faziam “correr atrás” de sua formação. Ora, cabe aqui então uma reflexão: o que se procurava, portanto, era comportamento e não conhecimento? Essa questão pode parecer nebulosa se não nos atentarmos para o ambiente atual.

Na era da indústria 4.0, informação abundante, conhecimento distribuído por algoritmos nas redes e I.A., as necessidades estão a um clique das mãos de quem pesquisa e há, quase ‘real-time’, respostas para a quase tudo que se procura. Desta forma, o mercado tem procurado nos profissionais, muito mais um comportamento do que um currículo. O “labo B” dos profissionais tem sido, cada vez mais, consultado nas pesquisas e entrevistas. Outro dia assisti a uma palestra de uma executiva de uma empresa da área de relacionamentos profissionais que relatava ter o ‘Linkedin’ contratado um profissional que também era um palhaço para sua área financeira. Nunca se falou tanto de formação complementar na área de autoconhecimento e comportamental. Cada vez mais surgem os profissionais de ‘coaching’ e ‘menthoring’ dentre outros.

Por fim, as universidades têm buscado também habilitar seus professores a procurar metodologias de ensino-aprendizagem muito mais voltadas às competências atitudinais. Uma sala de aula do ensino superior é hoje, um espaço de debate muito mais amplo do que apenas uma discussão sobre fórmulas ou processos fechados, prescritivos e normativos. Desta forma, não acredito que seja possível encerrar a discussão com a reflexão acima. Porém, acredito que ela é contemporânea e deve, cada vez mais, fazer parte dos bancos de faculdade, dos briefings de recrutamento e seleção, bem como, das instituições profissionais. Há uma mudança acontecendo. E você, está atento a ela?

O Adm. Carlos Alexandre Duarte Corrêa é mestre em Administração e Desenvolvimento Empresarial. Além de membro da Comissão Especial de Marketing do CRA-RJ.