Envelhecer com dignidade exige gestão: idadismo, literacia e equidade no cuidado

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O Brasil está envelhecendo — e isso não é uma previsão, é um fato. No Rio de Janeiro, esse processo é ainda mais evidente: dados do Censo do IBGE mostram que 13,1% da população fluminense já tem 60 anos ou mais, a segunda maior proporção de idosos do país. E a tendência é clara: a projeção é de que um em cada quatro fluminenses esteja nessa faixa etária em 2060. Esse cenário transforma o envelhecimento em prioridade estratégica: não é pauta do futuro, é demanda do presente.

Mas envelhecer não é igual para todos. A velhice é atravessada por desigualdades históricas e por determinantes sociais que moldam o acesso à renda, à moradia digna, à alimentação adequada, aos vínculos sociais, ao transporte, à informação e aos serviços de saúde. Para alguns, o envelhecer chega com autonomia e rede de apoio; para outros, chega com solidão, sobrecarga familiar, fragilidade financeira e barreiras concretas de acesso. Ignorar essas diferenças é reduzir o debate à biologia — quando, na verdade, envelhecer é também um fenômeno social, econômico e territorial.

Nesse contexto, existe um problema ainda pouco debatido, mas profundamente presente no cotidiano institucional: o idadismo. Trata-se da discriminação, do estigma e do preconceito baseado na idade — especialmente contra pessoas idosas. Ele aparece em falas aparentemente simples, como “idoso não aprende”, “não acompanha tecnologia” ou “não tem mais produtividade”, mas se manifesta, sobretudo, em decisões concretas: exclusões silenciosas, negligência, baixa prioridade, comunicação inadequada e barreiras estruturais no acesso aos serviços.

É preciso afirmar com clareza: idadismo não é apenas um problema social — é um problema de gestão.

Quando o preconceito por idade atravessa processos e decisões, ele se traduz em falhas reais de entrega. Na prática, isso significa serviços mal desenhados, etapas burocráticas excessivas, exigência de autonomia sem suporte, atendimento fragmentado e ausência de acessibilidade na comunicação. A consequência não é apenas injustiça: é perda de eficiência, aumento de risco e ampliação de custos sociais e assistenciais.

Além do preconceito explícito, o idadismo também se manifesta nas barreiras invisíveis do acesso, especialmente no campo da saúde. O desafio não é apenas “ter serviço”, mas garantir que ele seja utilizável por quem mais precisa. Como aponta o Portal Drauzio Varella, persistem obstáculos que impactam diretamente a qualidade do envelhecer, como longas esperas por consultas e exames, fragmentação do cuidado, exclusão digital, dificuldades de mobilidade e custos que ampliam vulnerabilidades na velhice. Em outras palavras, o sistema ainda responde de forma pontual e reativa, quando o envelhecimento exige cuidado contínuo, integral e centrado na pessoa.

É nesse ponto que a literacia em saúde deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma ferramenta concreta de gestão. Literacia significa garantir que as pessoas consigam acessar, compreender e usar informações para tomar decisões e navegar pelos serviços com segurança. Quando a comunicação é técnica demais, quando os fluxos exigem que o usuário “se vire”, quando a tecnologia vira barreira e não apoio, a autonomia se transforma em abandono — especialmente para quem já vive em contextos de maior vulnerabilidade social.

Portanto, falar em envelhecimento com dignidade é falar em equidade com literacia: orientar com clareza, simplificar etapas, adaptar linguagem, organizar o cuidado e acompanhar a
jornada do usuário. Isso melhora adesão, reduz riscos, evita agravamentos e diminui retrabalho. Literacia, aqui, não é gentileza — é gestão do cuidado.

O enfrentamento do idadismo dialoga diretamente com as políticas de saúde da pessoa idosa, que orientam o cuidado integral, contínuo e equânime. Envelhecer com dignidade não significa apenas viver mais, mas viver melhor, preservando os pilares do envelhecimento saudável: capacidade funcional e autonomia, saúde física, saúde mental e cognitiva, participação social e acesso a ambientes e serviços adequados. Sempre que o preconceito por idade reduz a escuta, dificulta o acesso e fragiliza o acolhimento, esses pilares são comprometidos — e com eles, o desempenho do sistema e das organizações.

No Rio de Janeiro, existe o Hospital Estadual Eduardo Rabello (HEER), em Senador Vasconcelos, unidade da rede estadual voltada ao atendimento de pessoas com 60 anos ou mais. Além da assistência hospitalar, a unidade abriga um Centro Dia, com atividades físicas, terapias cognitivas, acolhimento e acompanhamento multiprofissional. Ainda assim, o fato de ser uma iniciativa praticamente única evidencia um ponto central: diante do envelhecimento acelerado, o desafio não é apenas “ter um serviço”, mas ampliar capacidade, integrar a rede e replicar modelos que funcionam.

Os relatos das próprias usuárias demonstram a potência dessa abordagem. Ao descrever o espaço como acolhedor e transformador, elas reforçam que qualidade de vida passa por
pertencimento, autonomia e dignidade. Isso deixa claro que cuidar da pessoa idosa não é improviso — é desenho de serviço, método e gestão. Combater o idadismo, portanto, não se resolve apenas com conscientização. Requer governança, planejamento e responsabilidade: revisar fluxos, aprimorar a comunicação institucional, fortalecer a literacia em saúde,  capacitar equipes, integrar pontos de atenção e acompanhar indicadores de qualidade e equidade.

Diante do envelhecimento acelerado, insistir em práticas excludentes não é apenas injusto — é ineficiente e insustentável. Uma sociedade que normaliza o idadismo compromete a
dignidade e fragiliza sua capacidade de resposta.

“Envelhecer não é igual para todos — e ignorar isso é uma das formas mais silenciosas de produzir exclusão.”

Leituras recomendadas:

● IBGE. Tábuas Completas de Mortalidade – Brasil (2024) — expectativa de vida ao nascer.
● IBGE. Censo Demográfico 2022 — População com 60 anos ou mais (32,1 milhões; 15,6%).
● BEAUVOIR, Simone de. A velhice. (Obra original publicada em 1970).
● LEVY, Becca. A coragem de envelhecer: a ciência de viver mais e melhor.
● ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Publicações e conteúdos sobre direitos e realidades de pessoas trans no Brasil.
● Jornal de Letras (JL). “O combate ao idadismo na sociedade atual” (Célia Soares) e “A educação ao longo da vida” (Lucília Salgado). Edição 11 a 24 de dezembro de 2024.
● G1 (RJ1). Envelhecimento acelera no RJ e expõe a urgência de políticas para idosos; projeto oferece qualidade de vida para essa população. 03 jan. 2026.
● Portal Drauzio Varella. Envelhecimento saudável: os desafios enfrentados pelos idosos no acesso à saúde no Brasil.

* Adm. Cristiane Simões de Almeida é Gestora de Contratos e Responsável Técnica, graduada em Gestão Pública, com pós-graduação em Auditoria em Saúde e Gestão da Qualidade. É membro da Comissão Especial em Administração de Serviços de Saúde do CRA-RJ.

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