Eleições são um grande processo seletivo, com uma diferença: a gente é que escolhe o chefe.

Acostumados a viver em sistemas organizacionais cada vez mais complexos, é natural que consideremos um presidente da República como o principal executivo do país.

Assim, deve possuir determinadas características de liderança nem sempre bem exploradas durante a campanha eleitoral. Seus lados positivos são destacados e insuficiências cautelosamente ignoradas quando podem constranger. Os candidatos mostram um currículo sem mácula, de forma a conquistar a confiança dos selecionadores. Lembram alguns candidatos nas empresas, não?

O problema é que o contrato é de quatro anos, sendo muito difícil demiti-los. Todos garantiram, na campanha, que resolveriam nossos problemas de crescimento econômico, emprego, salário, educação, segurança e assim por diante. No entanto, um presidente não se mede apenas pela sua loquacidade ou capacidade de tocar obras. Precisam ter um perfil de realizador.

Aqui vão algumas perguntas que um presidente deveria saber responder sobre as dimensões do papel presidencial:

  1. Quais são os valores que constituem seu diferencial competitivo?

Estamos falando com o nosso principal líder, afinal de contas. Cabe a ele expressar, praticar e fazer com que os outros adotem certos princípios de gestão e convivência que tornarão a Nação melhor do que era antes. Lembro-me da história da mulher de César, que não bastava ser íntegra: tinha que demonstrar publicamente a integridade. Roberto DaMatta diz que um presidente tem que ser um empresário de valores. São princípios, modelos morais que influenciarão os comportamentos de milhões de pessoas, especialmente num momento histórico em que a política é vista como uma atividade menor e que os políticos detêm baixíssima credibilidade.

  1. E seu estilo de liderança?

Em primeiro lugar, há que admitir que o presidente é um líder e não apenas um preposto. Tem suas características pessoais ao lidar com os problemas que todo dia batem à sua porta. Precisa influenciar seus interlocutores, não sendo o dono único da verdade. Como tomador de decisões, nem tudo se resolve da noite para o dia, mas determinados problemas não podem ficar estacionados na caixa de entrada à espera da sabedoria de um consultor de ocasião. Se nas empresas chegam ao topo situações que ninguém conseguiu resolver, imagine numa Presidência da República.

  1. Trabalho em equipe faz parte de seu cotidiano?

Sabemos que o trabalho em equipe torna-se mais difícil na medida em que se aproxima do topo das corporações. Seria ingenuidade aplicar meia-dúzia de regras convencionais. O grande líder não é aquele que prende e arrebenta. O que existe é uma sofisticação de processo, já que os diversos atores de sua equipe (ministros, por exemplo), são escolhidos através de uma complicada arquitetura política e não representam uma seleção voluntária do presidente. Jimmy Carter mencionou este problema ao deixar a presidência dos Estados Unidos.

Algo, no entanto, faz lembrar uma equipe: a interdependência, a fidelidade ao pensamento político maior, o compromisso com os valores e assim por diante. Isso requer administração de conflitos, objetivos comuns, decisões compartilhadas. O sistema federativo também impõe uma gestão colaborativa com os estados e outros poderes. Cocriação é uma prática para o Século XXI.

  1. Existem limites para a coerência na política?

O caminho do poder é pavimentado por acordos e alianças. Ninguém governa sozinho. Aqui aparecem as contradições entre meios e fins, bem como a referência à ética pública. Acordos devem ser consistentes e representar um entendimento mínimo para se atingir objetivos superiores. Dizem que no Brasil os políticos têm uma perspectiva eleitoral e não ideológica, ou partidária. Até onde um candidato pode acomodar situações dentro do chamado interesse nacional evitando o aprisionamento a conveniências imediatistas?

  1. Quem é a Nação brasileira?

Como administrar um povo que tem o DNA mais diversificado do mundo? Quantas minorias tem o Brasil? Não cansamos de perguntar quem somos nós. Uma visão múltipla de nossa identidade contempla os incluídos, os intermediários e os excluídos. O Congresso Nacional é uma fragmentação de interesses muitas vezes paroquiais ou corporativos. Os indicadores educacionais são incompatíveis com as necessidades de incorporação das populações à cidadania e ao processo produtivo. O autoritarismo é uma herança cultural. Somos também pujantes, acolhedores, criativos, com uma sociedade industrial e de serviços bem estruturada. Não somos uma simples clivagem entre pobres e ricos.

  1. Como cortar este nó górdio que aprisiona a administração pública ao paternalismo e ao nepotismo?

São milhares de cargos preenchidos a cada administração. Qualquer empresa decretaria falência numa situação dessas. Repartir os despojos do patrimônio público é uma ação política inaceitável numa sociedade moderna. Algo tem que evoluir neste campo. Como gerar eficiência no sistema se atração e retenção de talentos está subordinada às conveniências dos barões da República? A quem interessa a destruição do Estado. Um candidato deve se posicionar, ou, pelo menos enunciar o modelo com que gostaria de chegar ao final de seu governo.

  1. O que gostaria de legar a seus filhos (as) quando voltar para casa no day-after de seu mandato?

Há certos compromissos pessoais que diferenciam o homem comum de um presidente da república. O grau de influência na vida das pessoas é infinitamente maior neste caso. Não é só a História que julgará sua contribuição, mas também seus contemporâneos. Não se espera uma virtude celestial face às naturais vicissitudes de um cargo tão espinhoso, mas um ser humano tem que ser olhado com orgulho e respeito por seus descendentes.

  1. Quem atrasa a mudança no Brasil?

     A agenda das mudanças é muito clara num país que está entre as principais economias do mundo, mas desqualificado em indicadores sociais e produtividade. Os candidatos podem até apresentar soluções parecidas, mas o problema não está na solução mágica e sim no processo. É função do presidente tirar o país de um imobilismo vicioso.

Onde está, de fato, a sabedoria para reduzir a desigualdade e a improdutividade que vão acabar nos vitimando? Os bolsões de resistência precisam ser convencidos a aderir a um projeto mínimo de governança e de Estado. Como será essa caminhada?

  1. Em quem se inspira nosso presidente?

É bom conhecer um pouco do pensamento íntimo do candidato e em quem se espelha como exemplo. Há figuras históricas que fizeram uma diferença, no Brasil ou fora dele, na política ou em outras disciplinas. Reuniram certas qualidades e foram ícones para futuras gerações. Trata-se de uma questão de raiz, de identificação. É importante identificar seus mentores vivos ou mortos, ou, se quiser, seus role models .

  1. Como administrar o dilema entre representar o pensamento do povo e influenciar na mudança de seus modelos mentais?

Talvez nem seja um dilema, mas uma equação política. O candidato se elege ao dizer o que o eleitor quer ouvir. Como presidente, às vezes é preciso fazer o que nem todos gostariam. Sua missão, portanto, é de transformação de certos paradigmas que sustentam o satus quo. Os paradigmas traduzem interesses e decisões requerem confiança e coragem. Talvez aí esteja o supremo predicado da liderança: aglutinar e mudar a cabeça das pessoas, superar as limitações circunstanciais e empolgar corações e mentes.

Reger esta orquestra muitas vezes dissonante e criar a sinfonia, eis uma tarefa só alcançada por quem de fato quiser sobrepor os interesses da Nação aos seus próprios.

Presidentes também são gestores de pessoas, não só de seu círculo íntimo, mas também de milhões de cidadãos, tendo que demonstrar uma dimensão humana superior e exemplar. Tornar a liderança transparente, eis sua maior responsabilidade. Não basta fazer, é preciso inspirar.