Atualmente, observa-se nas organizações prestadoras de serviços em saúde um aumento do número de usuários, que estão cada vez mais exigentes de seus direitos no que concerne ao uso dos serviços prestados, quer sejam realizados por entes públicos ou privados. Neste panorama, aos dirigentes e gestores coloca-se a questão crucial de como responder ao rol de novas exigências desse mercado. Tal demanda expõe a importância do bem-estar dos trabalhadores, a satisfação de usuários/clientes e, sobretudo, a tão desejada efetividade organizacional.

Neste contexto, observam-se nas organizações dados crescentes de doenças acometidas aos funcionários como Dort, Síndrome de Burnout, o sentimento de intensificação do trabalho, transtornos depressivos, transtornos de ansiedade, síndrome do pensamento acelerado, transtornos de pânico, chegando até mesmo em casos de suicídio. Todo esse quadro traz como consequência o aumento dos casos de reclamações dos usuários/clientes pela má prestação do serviço. Portanto, esses dados afetam a fidelização dos clientes e a competitividade dos negócios no setor privado; e o exercício da cidadania no setor público. Colocando assim um desafio aos dirigentes: entender as causas e amenizar os impactos provocados por essas ocorrências.

A conjuntura atual faz emergir a questão clássica do dilema entre bem-estar e produtividade, mostrando a importância da implantação dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT), que está se afirmando como uma alternativa para compatibilizar bem-estar, eficiência, eficácia e efetividade nas organizações. O PQVT é o conjunto formado por concepção, princípios e diretrizes que orienta as práticas de gestão organizacional e do trabalho. Eles veiculam valores éticos da relação indivíduo/trabalho/organização e constituem um objetivo organizacional de sustentabilidade socialmente referenciado (Ferreira, 2011).

Como responsabilidade da área de Medicina do Trabalho, uma das vertentes do programa, existe a busca do trabalho preventivo da saúde mental dos seus colaboradores, em especial àqueles que exercem suas funções em organizações de saúde, objetivando sempre a necessidade de cuidar de quem cuida. Todavia, nos últimos tempos, em que vivemos uma pandemia, esse cenário se tornou ainda mais delicado e sensível. Logo, ações de cuidado com o profissional que precisa estar de prontidão, quando o mundo todo busca se isolar, tornou-se fundamental para o zelo com esses trabalhadores.

A saúde mental pode ser analisada sob diversos prismas, e um deles não poderia deixar de ser a vida laboral do indivíduo. Tendo em vista que um cidadão comum passa em média um terço do seu dia dentro do ambiente corporativo, as condições de realização da sua rotina funcional não podem ser deixadas para segundo plano. Os programas de saúde mental devem buscar identificar nos locais de trabalho os fatores envolvidos no adoecimento mental, propondo medidas de intervenção no ambiente que vise valorizar o colaborador, diminuindo assim o seu sofrimento psíquico. Pesquisas apontam que dentre os fatores que mais impactam nos efeitos negativos à saúde mental estão as relações socioprofissionais, ou seja, as relações com superiores hierárquicos, as interações com os membros da equipe e outras equipes e relações com os clientes externos, como usuários e consumidores.

Como serviços utilizados pelas organizações para o fortalecimento qualidade de vida no trabalho tem-se encontrado: suporte psicológico, suporte físico corporal, terapias, reeducação nutricional, atividades de cultura e lazer, treinamento e busca na melhoria do clima organizacional. Todas essas atividades podem ser classificadas como antiestresse, por exemplo dança de salão, academia corporativa, massagem, ioga, coral, teatro, espaço de convivência, entre outros. Essas ações permitem que aconteça o fortalecimento do relacionamento dos funcionários das diversas áreas da organização aproximando pessoas e fortalecendo laços que se estendem para o desenvolvimento das atividades diárias.

Portanto, a intervenção no campo dos PQVT, para que seja eficaz no combate ao adoecimento mental dos funcionários, deve buscar atenuar intervindo não somente nas causas, mas também, nos efeitos do mal-estar dos trabalhadores nas relações socioprofissionais, incentivando a inversão do paradigma do “indivíduo como variável de ajuste” para “adaptar o trabalho ao ser humano”, promovendo um cuidado de forma ampla para com o profissional, em especial o profissional de saúde.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

FERREIRA, R.R., FERREIRA, M.C.,ANTLOGA, C. & BERGAMASCHI, A.V. (2009). Concepção e Implantação de um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT): no Setor Público: O Papel Estratégico dos Gestores. RAUSP. Revista de Administração, 44, 2, 147-157.

FERREIRA, M.C . A Ergonomia da Atividade pode Promover a Qualidade de Vida no Trabalho? Reflexões de Natureza Metodológica. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 1, jan-jun 2011, 8-20