A GERAÇÃO MILLENNIALS

Para melhor compreensão, também considero como millennials os nascidos a partir de 1980. Englobam o que se convencionou chamar de Geração Y e de Geração Z. Divido esta exposição em 3 partes, que se interpenetram num todo orgânico: no fundo, como se comportam e quais são os desafios dos millennials nos próximos tempos?

1ª. Parte: a geração millennials, distintas facetas!

Refiro-me a todos os millennials, não só aos filhos da classe A, os “superqualificados” que integram as elites econômicas e educacionais da sociedade globalizada dos tempos presentes. Normalmente, só se falam desses millennials: este é um equívoco ou dissimulação intelectual, que esconde muito de discriminação contra a massa majoritária de vulneráveis despreparados, precarizados pela péssima educação.

Não se considera os millennials do 4º. extrato social, completamente fora das relações econômicas normais, desbancarizados, totalmente dependentes do dia a dia para sobreviver.

E, assim como também, não se fala da elite das elites dos millennials, que, como uma tribo própria, tem atitudes e comportamentos bem atípicos em relação à média dos demais integrantes das gerações Y e Z.

2ª. Parteuma geração moral? Ou seria também uma geração perdida?

Os pressupostos doutrinários, ideológicos e políticos que fundamentam a ação dos millennials em suas distintas facetas ou tribos precisam ser compreendidos para deixarem de ser tratados equivocadamente como uma massa orgânica consistente, o que não são.

3ª. Partea rebelião das novas elites, os anarquistas do 3º milênio.

  Os terraplanistas falam tanto contra a globalização, mas a própria pandemia do Coranavírus é a globalização da doença.

A vida globalizada é uma realidade inescapável da humanidade neste 1º. quartel de Século XXI, e, certamente, assim deverá ser nas próximas décadas.  Há sempre avanços e novas etapas, que cada vez mais se aprofundam quanto mais as tecnologias se desenvolvem: vivemos em plenitude a aldeia global de Marshall McLuhan – o meio é a mensagem.

1ª. Parte: geração millennials, distintas facetas 

A crise mundial – econômica, social e política – produzida pela transformação sem precedentes da Economia 4.0 coloca, de forma dramática, a questão do emprego para os jovens que ascendem ao mercado de trabalho. O presente e o futuro são sombrios para a grande massa de millennials desqualificados, a ponto de já se falar em geração perdida pelo trabalho apenas precarizado para a grande parte dos millennials.

O conceito de emprego é muito recente na história, pois, em verdade, advém da 1ª Revolução Industrial há pouco mais de 300 anos. Definitivamente não será um “dolce far niente”, uma vida prazerosa de trabalho e de ócio criativo bem remunerado e realizador para a grande maioria dos millennials: “este é um sonho numa noite de verão!”. Mas não é isso que falam os que discutem esse tema nem no mundo acadêmico nem no mundo das empresas, menos ainda nas mídias sociais e na grande imprensa. Os millennials precarizados terão crescentes dificuldades e uma enorme necessidade de redes de proteção social para realizarem uma longa travessia cheia de atribulações face ao desemprego e à precariedade do trabalho enquanto fizerem a transição para a plenitude da Economia 4.0.

É claro, os jovens bem qualificados têm, e terão, muito menos dificuldades de obtenção do tão almejado emprego – ou da empregabilidade e do empreendedorismo. Mas essa facilidade não funciona para todos, e cada vez funcionará menos para a grande maioria das Gerações Y e Z. Se a base da Economia 4.0 é a cognição, como fica o Brasil tão incompetente em educação?

A tecnologia não reduz desigualdades, ao contrário, pode ampliar e aprofundar as diferenças entre pessoas e as classes sociais. A agricultura há 10 mil anos legou riqueza a poucos, em detrimento da maioria que trabalhava no campo: os servos da gleba, a aristocracia e o campesinato, o senhor feudal e os obreiros da terra: a vida faustosa para uns e a fome para muitos. Institucionalizou as castas e as diferenças no conjunto das sociedades humanas. A tecnologia não necessariamente traz a distribuição equitativa de seus benefícios. Qual é o grande desafio da sociedade moderna: aprofundar ou diminuir as desigualdades?  É preciso colocar a tecnologia a serviço da plena realização humana!

 Estamos no início de uma nova era, que alterará profundamente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Dois campos opostos se sobressaem quando se trata do impacto das tecnologias emergentes no mercado de trabalho mundial:

aPositiva: há os que acreditam num “Final Feliz”, num “Happy End”. Os trabalhadores serão deslocados pela tecnologia, mas vão encontrar novos empregos, a maioria ainda sequer imaginados. A tecnologia vai desencadear uma nova era de prosperidade para todos, como aconteceu com as revoluções industriais anteriores.

b) Negativa: há os que acreditam que a tecnologia levará a um progressivo “Armagedom” social e político. Criará uma escala massiva de desempregados e de precarização nos empregos e até no trabalho.

 O Armagedom dar-se-á não na batalha final de Deus contra uma sociedade humana iníqua, injusta, maléfica e maldosa, como previsto na bíblia; mas uma batalha final da humanidade contra o “Deus da Tecnologia”, contra um ser tecnológico que pretende assumir os destinos e as funções do ser humano. É a máquina que aprende, a aprendizagem profunda, a exacerbação da inteligência artificial, o robô que pressupostamente pensa e pode vir a ter consciência. Será possível? Uns dizem que sim, outros negam tais possibilidades peremptoriamente. Se vivêssemos em 1022 seria muito fácil saber como seria o mundo em 1052. Como vivemos em 2021, muito difícil saber com precisão como será o de 2051?

 O fato hoje é que temos milhões de robôs em número aceleradamente crescente, que substituem os humanos nas mais distintas formas de trabalho; mas que não recebem salários, que não têm FGTS, previdência social, direitos trabalhistas, férias, que não reclamam de horas-extras, que trabalham noite e dia sem parar, se necessário.

 O resultado provável estará entre algum lugar médio entre esses dois campos antagônicos de visão, o positivo e o negativo. A questão é o que fazer para promover resultados médios mais positivos e ajudar aqueles que ficarem presos na transição?

Certamente as vítimas da transição ficarão em condições objetivas bem inadequadas para uma sobrevivência digna. Os formuladores de políticas públicas, e, especialmente, os pensadores sobre gestão das organizações, inclusive os operadores da administração em geral, na academia e no  mundo do trabalho, quando  tratam do tema se circunscrevem apenas àqueles que poderão se ajustar facilmente aos novos tempos da Economia 4.0 por já disporem de recursos especiais de educação e de cultura  para avançarem: oferecem caminhos, discutem alternativas e dicas, vislumbram possibilidades que se circunscrevem apenas às elites e às elites das elites dos millennials. E ignoram as circunstâncias da grande massa dos millennials destituídos pela sorte.

Para a grande maioria dos millennials quase nada é pensado e sugerido, sequer se adentram em formulações de políticas públicas e de caminhos para atenuarem uma transição difícil e inóspita. Será Renda Básica Universal e Incondicional? Não sei, precisam se debruçar sobre isto.

Refiro-me em geral aos pensadores e operadores à direita e à esquerda, como o resto da polarização em que se encontram, também se omitem desta discussão e olham a questão apenas sob o viés do oportunismo político-eleitoreiro do cotidiano.

 A evidência demonstra, às escancaras, que a 4ª RI está criando menos postos de trabalho nas novas atividades econômicas do que as três revoluções industriais anteriores.

2ª. Parte: millennials, uma geração moral?

A moral se instalou hoje no centro dos debates no mundo das organizações e no universo da sociedade. Presenciamos um retorno da moral no sentido do discurso, não necessariamente da prática. Não é que as pessoas sejam hoje mais virtuosas do que antes, como se parcelas da sociedade pudessem se constituir numa aristocracia da virtude, verdadeiros varões de Plutarco”, de homens probos, cheios de serviço à pátria, incorruptíveis, que podem ditar aos demais as regras das pessoas de bem.

As organizações empresariais não são a aristocracia da virtude. Como bem diz Claude Levy-Strauss: “a natureza do homem é permanente e universal”.  Fala-se muito em moral e ética no conjunto das organizações e no universo da sociedade. É o discurso da moda: as empresas rapidamente se ajustaram aos tempos presentes do politicamente correto como respostas da sociedade de mercado ou do capitalismo às demandas da sociedade: ética empresarial, empresa cidadã, responsabilidade social, respeito ao cliente, voluntariado solidário, todo foco à ESG, o novo mantra do bom desempenho!

É bom que tenham esses discursos e práticas. Muito bom! Mas, afinal, é sempre bom relativizar um pouco essas palavras de ordem e conceitos hoje dominantes: as organizações nada mais são do que ficções jurídicas. Não há organizações éticas, as pessoas que as integram é que podem ou não ser.

Pessoas como eu, nós, os da geração dos baby-boomers, os nascidos do pós-guerra, dos anos dourados, dos idos das revoluções de 1968, vivíamos muito mais o imoralismo, a libertação geral, a rejeição ao modelo autoridade-obediência: “É proibido proibir”; “faça amor, não faça a guerra”; “sejamos responsáveis, peçamos o impossível”; “vivamos sem tempos mortos, desfrutemos de tudo sem limites”. “Rasguemos os sutiãs” das moças na busca da “mesmice” e não na busca das diferenças e das complementariedades – women´s lib, black power, o movimento estudantil.

Pensávamos naqueles tempos em viver além do bem e do mal: vivíamos a ideologia de “tudo é política e a política era tudo”.

O apoliticismo era impensável: ninguém exerce a cidadania sem exercer um papel político, pela omissão ou pela participação ativa.

Éramos todos contra a moral repressora, castradora e culpabilizadora da sociedade em geral – na família e nas organizações, nas diferentes instâncias da comunidade. Tudo o que nos parecia fundamentalmente imoral e inaceitável só se resolveria pela política, pela revolução, pela quebra dos tabus repressores estabelecidos pelas elites dirigentes.  O modelo autoridade-obediência, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, teve o seu apogeu à época da Rainha Vitória e a sua máxima rejeição nos movimentos políticos dos baby-boomers de 1968 nas praças e nas ruas de todo o mundo.

Para nós, a política substituía a moral. Queríamos ser um “Nietzsche de esquerda” e, ao mesmo tempo, um “Marx Imoralista”: Deus está morto, porque a religião está a serviço da política, assim como moralizar a economia só será possível através da ação política. A política era tudo e tudo era política.

Quando um professor queria nos divertir: contava piadas de moral e de religião. Quando queria que ficássemos sérios, falava de política e da revolução.

Hoje os millennials vivem outros tempos: a política, em geral, não interessa mais aos jovens da geração Y e Z. Quando um professor os quer divertir, conta piada sobre política e os políticos. Só se fala de política para debochar e ridicularizar! Empreendem todos, hoje, um retorno à moral, agora rebatizada de direitos humanos, humanismo, solidariedade, generosidade, politicamente correto.

Hoje estão em primeiro lugar: Betinho, não o líder político revolucionário da AP – a Ação Popular, mas o Betinho da Luta contra Fome do “Programa Fome Zero”; não mais “o irmão do Henfil que partiu num rabo de foguete”, nos versos de Aldir Blanc e cantado por Ellis Regina; agora os novos líderes são D.Hélder, Papa Francisco, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, frei Bento, frei Rubião, Chico Xavier.

Há 50 anos, contra a fome, gritávamos pela ação política e pela revolução! Hoje contra a fome, a miséria, as desigualdades, os millennials gritam pelos programas assistenciais dos governos, das empresas, das ONG´s e das igrejas. Exigem de todos os comportamentos morais e éticos, generosos e solidários!

Diante dos problemas que são coletivos, sociais, conflituais – logo, políticos – a tendência é buscar respostas individuais, religiosas, e até emocionais. Buscar essencialmente ações morais e éticas.

Para os baby-boomers, a boa política era a única moral necessária!

Para os millenials, a moral é que é tudo! Assim, parece-lhes ser a moral a única política necessária e suficiente! Havendo moral, haverá solução para tudo! Acabarão todos os problemas da sociedade.

Ambas as gerações – a nossa dos baby-boomers e a atual das gerações Y e Z – estavam e estão equivocadas. Era um erro nosso – dos baby-boomers – julgar que a política possa fazer às vezes da moral. Mas outro erro é acreditar que a moral possa fazer às vezes da política, como desejam os millennials.

 A moral habita um reino. A política habita outro reino bem distinto. Nem a moral substitui a política, nem a política substitui a moral.

O que significa Bin Laden para um jovem ocidental? Uma opção moral, não política ou econômica como muitos pensam equivocadamente. O islamismo não condena a propriedade privada, o controle dos meios de produção, a sociedade de mercado, o trabalho assalariado, a mais valia, a expropriação, os expropriadores e não se penaliza dos expropriados. Não condena as desigualdades e as castas de privilegiados! Bin Laden não é uma alternativa social, econômica e política ao capitalismo e à sociedade de mercado. É uma alternativa moral para os jovens ocidentais fanatizados, que abandonam suas cidades europeias para o engajamento nas ações terroristas da Jihad Islâmica. Ele simboliza outros valores, outros ideais culturais e civilizatórios, ou seja, uma outra moral e uma nova ética, e, portanto, uma outra civilização fundada na moralidade da Sharia, não mais na civilização judaico-cristã.

 Mas nada que abale ou que se contraponha ou que ataque ou que substitua a sociedade de mercado e o sistema capitalista mundial. Pelo contrário! Passar para o lado de Bin Laden não é trocar de adversários. É passar de uma questão para outra, é passar da questão política e econômica – contra ou favor do capitalismo, por exemplo – para passar para uma questão moral ou civilizatória. É contrapor os valores do Ocidente laico, democrático e liberal pelos valores da teocracia islâmica aristocrática e não-democrática. É trocar Che Guevara, Lenin ou Trotsky, ou trocar Churchil, De Gaulle e Roosevelt por Bin Laden, Boko Haran, pelo estado islâmico ditatorial.

É verdade também que os nossos millennials vulneráveis não se aliam ao terrorismo islâmico, mas se tornam soldado e aviãozinho do tráfico.

 A política jamais tem a ver com o bem e o mal, mas com o que é preferível e o detestável, entre o legal e o que não é legal, entre o que é permitido ou não fazer em determinado momento por avaliação da maioria dos cidadãos. Não se vota o bem e o mal. Se vota o que os cidadãos preferem num determinado momento de um ciclo histórico, para o bem ou para o mal.

Qual o preço moral de um barril de petróleo? Que limites a economia deve fixar para a expansão moral do preço do barril de petróleo? A economia não responde. Vai querer sempre aumentar, se lhe for permitido. Querer transformar um ideal moral numa realidade por imposição política conduz à tirania, ao totalitarismo, à autocracia. É preciso mais moral na política e mais política na moral, pois devem se complementar, se interpenetrar para uma controlar a outra, uma influenciar a outras, cada uma conter os excessos recíprocos.

Tão equivocados quanto os baby-boomers, que “absolutizaram” a política, estão os millennials, que pretendem absolutizar a moral. A sociedade precisa das duas: da política para controlar a moral e da moral para controlar a política.

Assim, também, não contem com a ciência e a tecnologia para se controlarem a si próprias; não contem com as leis para se autocontrolarem; nem com a ética e a religião. Todas são interatuantes e interdependentes. Precisamos simultaneamente de ordens ou limites. Uma controla ou limita a outra, mas nenhuma se controla a si própria.

Estamos sendo sempre confrontados em nossos cotidianos por cinco ordens. São intrinsicamente necessárias. Nenhuma delas é autossuficiente. Nenhuma se basta a si mesma:

  1. A Ordem Econômica ou Tecnocientífica: estruturada internamente pela oposição entre o possível e o impossível de ser realizado, mas, por isso mesmo, incapaz de se autolimitar;
  1. A Ordem Jurídico-Política: Limitada do exterior por uma segunda ordem, que também pode ser chamada de Ordem Institucional-Legal, estruturada internamente pela oposição entre o legal e o Ilegal, mas também, igualmente como as demais, incapaz de se autolimitar por si só.
  1. A Ordem Moral: se efetiva pela oposição entre o dever fazer e o não dever fazer, tomada pela perspectiva do foro íntimo, da escolha individual.
  1. A Ordem Ética: finalmente, essas três primeiras ordens são complementadas e abertas por cima pela quarta ordem, ou seja, a ordem do amor, do respeito ao próximo, do amor à humanidade, daquilo que julgo ou não adequado para os outros, para o conjunto da sociedade.
  1. A Ordem Religiosa ou espiritual: claro, para aqueles que creem em Deus ou em divindades transcendentes superiores ao homem, haveria uma quinta ordem, ou seja, a Ordem Espiritual, que, por sua vez, constrange e limita sobremaneira todas as demais ordens, já que se fundamenta nos postulados da fé e das crenças professadas por cada um.  O universo da sociedade é decididamente condicionado pela busca de satisfação das determinações da hierarquia das ordens, que, ao fim e ao cabo, são a fonte e o limite das atitudes e dos comportamentos individuais e coletivos. Nenhuma das ordens é, por si só, suficiente. Não basta a si própria. Uma não funciona sem a outra; interagem, relacionam-se e influenciam-se reciprocamente. Cada uma delas tem a sua própria lógica, que subsiste sempre em interação com as demais.  No cotidiano, em verdade, todos nós estamos, sempre, simultaneamente, transitando por essas cinco ordens. Por exemplo, imagine-se que você esteja em um supermercado, fazendo as compras do mês. Ao escolher os diferentes produtos oferecidos nas prateleiras, você se encontra exposto à prevalência da Ordem Econômica ou Tecnocientífica.   O roubo de produtos é legalmente proibido pela Ordem Jurídico-Política ou Institucional-Legal, que criminaliza os shoplifters.    É claro que você nem se dá conta disso: não se permitiria a desonestidade de levar qualquer produto sem pagar em função dos limites que lhe são impostos pela Ordem Moral.  É bem possível que muitas de suas escolhas sejam influenciadas não só por sua consciência moral, mas também em função da sua preocupação ética com o meio ambiente, por sua opção preferencial por produtos com selo verde, por sua recusa em comprar produtos de organizações que não tenham programas de responsabilidade social e de sustentabilidade. Todas essas circunstâncias condicionam o seu comportamento e atitudes pelos limites que lhe são impostos pela Ordem Ética.  A Ordem espiritual, por sua vez, também influencia as suas decisões de compra devido aos fundamentos de sua crença religiosa ou por sua espiritualidade, o que para os demais clientes do supermercado pode não ter a menor importância, caso não compartilhem com você das mesmas opções religiosas ou espiritualistas.  Assim, ambas, a sua consciência moral e ética, e as suas opções religiosas ou espiritualistas, assim como o arcabouço institucional-legal da sociedade em que você vive não revogam a lei econômica da oferta e da procura, mas intervêm poderosamente na realidade do mercado, que necessariamente precisa se ajustar a todas essas circunstancialidades, se quiser existir, crescer e se desenvolver.  O problema para ao supermercado, sob o ponto de vista estritamente econômico, ou seja, referente à Ordem Econômica ou Tecnocientífica, não é saber se você tem ou não tem moralmente razão de escolher um determinado produto com selo verde, ou um produzido obedecendo às regras de sua crença religiosa ou espiritualista. O que importa ao supermercado é saber se você vai comprar o produto que lhe é oferecido, se o custo/benefício desse produto hipotético comercialmente é justificável, se compensa para ele oferecer-lhe tal produto atendendo às suas opções morais, éticas, religiosas ou espiritualistas, constituintes das ordens moral, ética e espiritual. É claro, cumprido o requisito da legitimidade interposta pela Ordem Jurídico-Política ou Institucional-Legal, que autoriza o atendimento aos requisitos de legalidade e de licitude do ato de produção e venda. Muitos produtos não estão à venda porque não estão autorizados ou mesmo são proibidos, senão lá estariam também nas gôndolas.    Na explicitação desse exemplo do supermercado, as representações legais, morais, éticas e religiosas ou espirituais intervêm na Ordem Econômica ou Tecnocientífica, tanto na decisão, na pesquisa e na forma de produção quanto na venda dos produtos oferecidos. O mesmo exemplo se aplica à liberação do jogo, à descriminalização do uso da maconha, à severidade das penalidades aplicadas aos réus condenados, ao uso das pesquisas de células-tronco, à prática do aborto, aos fetos anencefálicos etc.   Por isso, necessitamos dessas 5 ordens ao mesmo tempo, em sua independência pelo menos relativa – cada uma delas tem sua lógica própria- e sua interação. Uma não pode funcionar sem as outras. Cada qual é independente em si, mas todas se mantêm em permanente interação, interinfluenciação e interdependência relativas.     3ª. Parte: A Rebelião das Novas Elites: os anarquistas do Terceiro Milênio.  Os millennials são constituídos de 3 grandes tribos distintas:
  1. Pela grande massa dos destituídos, com baixa educação e poucas possibilidades de inserção na Economia 4.0;
  1. Pela elite bem-educada, que tem amplas possibilidades de plena inserção nos grandes avanços que já se realizam pela inteligência artificial, pela computação quântica, pelo 5G;
  1. E pela elite da elite, “o crème de la crème” dos millennials, que chamo dos anarquistas do Século XXI.   A rebelião das novas elites ou dos anarquistas do Século XXI se constitui, também, numa tribo, com características bem próprias, que marca o nosso tempo. Pensam à esquerda, mas vivem à direita.  Em geral são ricos, já que regiamente recompensados pelas inúmeras organizações em que, transitoriamente, prestam serviços, sem quaisquer vínculos mais profundos de compromisso e dedicação.   Vestem-se sem ostentação, ora casual ora formal, ajustando-se às circunstâncias apropriadas, como se não tivessem tanto dinheiro ou se apresentando nos “trinques”, quando necessário.  Gostam de passar férias em lugares exóticos, principalmente em países africanos e asiáticos, nas montanhas do Himalaia e da Nova Zelândia ou nos desertos da Austrália.   O máximo permitido é Cuba, a Disneylândia da esquerda brasileira.  Mas não dispensam os voos de classe executiva e o dernier cri da última trapizonga tecnológica.  Compadecem-se da miséria e da fome nos países subdesenvolvidos, mas não abrem mão do vinho dernier cru e das delícias da nouvelle cuisine.  As novas elites são, assim, um híbrido não muito bem definido entre hippies e yuppies: vocalizam os valores de liberdade e de afirmação dos anos 1960, mas focam a ação profissional na busca da riqueza em moto-contínuo.  Moralizam a transgressão e produzem um discurso de rebeldia ao establishment, mas, contraditoriamente, atuam na busca permanente por usufruir o máximo de conforto, benefícios e privilégios que sejam capazes de apropriar e acumular típica dos millennials.  A rebelião das elites é a contracultura às organizações que se pretendem auto cultuar como se fossem verdadeiras seitas do trabalho. Constituem-se como verdadeiro apartheid social no mundo empresarial globalizado.   São os anarquistas do terceiro milênio. Não aceitam limites ou laços permanentes com lugares, pessoas ou organizações. Em verdade, nem com cidades, regiões ou países. São os novos nômades dos tempos globalizados.   Não são anarquistas contrários à globalização, tão comuns nas manifestações de rua nos últimos tempos em todo o mundo.  Ao contrário, centram a sua rebeldia em um anarquismo individualista, no qual buscam tirar partido temporário das circunstâncias onde quer que estejam. “O negócio é levar vantagem em tudo”.  Para esse grupo dos millennials, a moral cedeu lugar ao moralismo da hipocrisia. E hipocrisia vira o vício da moda; e o vício na moda vira virtude.  Vagam como predadores, de organização em organização em busca de sua autorrealização, prestígio e reconhecimento, a despeito das consequências que geram nos circunstantes por suas decisões sempre voltadas para os interesses dos que detêm o poder no mundo dos negócios. São adeptos do maquiavelismo do sucesso pessoal: “que se danem os escrúpulos”, apesar do discurso moralizante do politicamente correto. Praticam a escalada do “como se dar bem”. São as forças mercenárias das elites globalizadas, cada vez mais requisitadas para o enfrentamento de crises específicas ou para o redirecionamento de metas, de demissões, de missões e de visões mais utilitaristas, ou para realizar as joint ventures soi disant de incorporações e fusões, compras ou absorção cruéis de empresa por outra.  Não vestem a camisa de ninguém: países, organizações, equipes, pessoas, parentes ou familiares diretos. São leais somente a si próprios e ao que temporariamente realizam. São “os donos dos castelos dos homens sem alma”.  São como algumas estrelas do jet set internacional, como o jogador Ronaldinho Gaúcho que, certa vez, declarou à imprensa: ganhar o campeonato europeu com o Barcelona era muito mais importante do que participar da Copa Mundial jogando pelo Brasil.   São rigorosamente contrários à atual ordem econômica mundial, mas nada fazem para mudá-la, além de discursos ácidos, em geral, numa reunião social festiva.   Ao contrário, tudo fazem para tirar do sistema que tanto criticam o que melhor puderem obter para si.    Em suma, discutir o mercado de trabalho, novas tendências e tecnologias no florescimento da Economia 4.0 sem considerar essas tipicidades da realidade das gerações Y e Z, os millennials, que já ascendem e ascenderão às direções das organizações e dos governos na sociedade globalizada, é “querer tapar o sol com a peneira”, é querer buscar refrigérios para as questões candentes que, de fato, são as causas reais das circunstâncias em que já vivemos e vamos viver no futuro.

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