Longevidade e informalidade ameaçam o futuro das aposentadorias

O desafio previdenciário, contudo, não é mais uma via de mão única. Se por um lado a demografia aumenta o número de beneficiários, uma silenciosa revolução no mundo do trabalho corrói a base de quem financia o sistema. O primeiro dilema é o da longevidade. O modelo de repartição, no qual os trabalhadores ativos financiam os aposentados, foi concebido para uma realidade distinta e que não se sustenta mais. A recente reforma da Previdência foi um passo necessário, porém não definitivo. Ignorar a tendência global de aumento da idade para aposentadoria é adiar uma crise anunciada.
Um segundo dilema, talvez mais complexo e disruptivo, impõe-se com a transformação das relações de trabalho. A figura do empregado com carteira assinada, pilar da arrecadação, perde protagonismo para uma nova geração que almeja o empreendedorismo ou é levada para a chamada “Gig Economy”. Esse fenômeno esvazia o caixa da Previdência e representa um duplo risco, com o desfinanciamento do sistema no presente e a criação de um futuro idoso sem proteção social. Nesse contexto, a ciência atuarial, que sempre foi a base para a sustentabilidade do sistema, torna-se ainda mais vital. Figuras como Rio Nogueira¹ e os cardeais de previdência foram precursoras em utilizar o cálculo para projetar cenários e garantir por décadas a viabilidade do nosso modelo previdenciário brasileiro. No entanto, as condições demográficas e sociais se alteram gradativamente, não só no Brasil, exigindo reformas que antecipadamente se adequem aos novos cenários.

O futuro da Previdência Social é um dos maiores desafios de gestão que o Brasil enfrenta. Não se trata de uma discussão ideológica, mas de uma questão de matemática, planejamento e administração responsável. Cabe a nós, administradores, em conjunto com os atuários e estatísticos, liderar este debate com uma visão técnica, honrando o legado de pioneiros que construíram o sistema e propondo as inovações que garantirão sua sobrevivência.
*Adm. Wagner Siqueira é presidente do CRA-RJ
¹ Utilizando seus conhecimentos de matemática e estatística, Rio Nogueira tornou-se uma das maiores autoridades no assunto e peça central na construção técnica do sistema previdenciário brasileiro. O modelo que ajudou a criar em meados do século passado era reconhecidamente original, pois se diferenciava dos outros ao ser baseado nas tábuas de mortalidade e natalidade brasileiras, que eram significativamente distintas das estrangeiras.