Quando “o sistema” vira o culpado: a urgência da governança em TI no Brasil
Vivemos na era dos sistemas. Eles não são mais ferramentas acessórias — são a própria infraestrutura invisível que sustenta a vida econômica e social do país. Da concessão de benefícios previdenciários à matrícula em exames nacionais; da emissão de documentos públicos ao processamento da folha de pagamento de empresas privadas; da aprovação de projetos técnicos à arrecadação tributária. Sistemas informatizados hoje permeiam integralmente a sociedade.
Entretanto, sempre que um cidadão se depara com uma barreira que o impede de exercer um direito ou cumprir uma obrigação, a resposta recorrente é quase automática: “o sistema está fora do ar”, “houve instabilidade”, “o problema é do sistema”. Atribui-se ao sistema uma espécie de personalidade abstrata, como se ele existisse por si só, dissociado de processos, de gestão e de responsabilidade humana.
Mas sistemas não falham sozinhos. Eles são concebidos, desenvolvidos, contratados, operados e mantidos por pessoas. São geridos por organizações. São financiados por recursos públicos ou privados. E, sobretudo, deveriam estar submetidos a práticas rigorosas de governança, gestão de riscos, auditoria tecnológica e planejamento contingencial.
É inadmissível que idosos deixem de receber suas pensões por dias ou semanas devido à indisponibilidade de sistemas. É inadmissível que estudantes enfrentem obstáculos para inscrição em exames nacionais por falhas tecnológicas. É inadmissível que servidores públicos, trabalhadores ou fornecedores deixem de receber seus pagamentos porque um sistema “caiu”. Em todos esses casos, o impacto não é tecnológico — é humano, social e econômico.
Nenhum sistema é infalível. Falhas técnicas são inerentes a qualquer infraestrutura complexa. A questão central não é impedir completamente a ocorrência de falhas, mas reduzir sua probabilidade, mitigar seus impactos e assegurar respostas rápidas e eficazes quando ocorrerem. Isso exige investimentos contínuos em infraestrutura tecnológica, atualização de equipamentos, redundância de servidores, testes de estresse, simulações de crise, protocolos de continuidade de negócios e capacitação permanente das equipes.
Governança em Tecnologia da Informação não pode ser tratada como despesa secundária ou como tema restrito ao setor de informática. Trata-se de uma questão estratégica de gestão. Envolve planejamento, controle, monitoramento de indicadores, compliance, segurança da informação, gestão de contratos, análise de riscos e responsabilidade institucional. Em síntese, é tema de alta administração.
No setor público, a governança em TI está diretamente vinculada ao princípio da eficiência e à garantia de direitos fundamentais. Na iniciativa privada, está associada à reputação da marca, à competitividade e à sustentabilidade do negócio. Em ambos os ambientes, a negligência tecnológica compromete a confiança — e confiança é ativo institucional.
É preciso superar a cultura da justificativa automática — “a culpa é do sistema” — e avançar para uma cultura de responsabilidade, planejamento e transparência. Quando um sistema falha, a pergunta não deve ser apenas “quando voltará ao ar?”, mas “que medidas preventivas foram adotadas?”, “quais riscos haviam sido mapeados?”, “há plano de contingência estruturado?”, “a governança está adequada ao porte e à criticidade da operação?”.
O Brasil precisa amadurecer sua visão sobre infraestrutura digital. Sistemas são hoje tão essenciais quanto energia elétrica, saneamento ou transporte. Não podem ser tratados como acessórios tecnológicos, mas como estruturas críticas de funcionamento do Estado e das organizações.
Discutir governança em TI é discutir gestão responsável. É discutir respeito ao cidadão. É discutir compromisso com a eficiência, com a previsibilidade e com a dignidade das pessoas que dependem desses serviços.
Não é o sistema que falha. É a gestão que precisa evoluir.
*Adm. Wagner Siqueira, Presidente do CRA-RJ e ex-presidente do IPLAN Empresa de Informática do Rio