Parece não haver dúvidas em relação aos resultados positivos que os trabalhos de conclusão de curso (os TCC) que possuem projetos consistentes e docentes capacitados provocam na vida acadêmica dos formandos do curso superior e, em especial nesta minha análise, dos formandos do curso de Administração.

Quando consideramos os famosos planos de negócios (PN), ou os business plain, como instrumento de TCC, as possibilidades de contribuições para a vida profissional destes alunos são inúmeras e vão muito além do simples cumprimento de um roteiro de elaboração de PN promovendo uma oportunidade ampla no desenvolvimento de um trabalho transdisciplinar de formação técnica e humana. É possível, por meio do uso de um PN em TCC, ir além do processo de ensino e integrar ações de pesquisa e extensão. Para tanto, além do desenvolvimento básico de cada sub-plano do PN (operacional, estrutural, mercadológico, pessoas e financeiro), os docentes que fazem a orientação deste tipo de trabalho podem e devem aproveitar as seguintes possibilidades junto aos seus discentes orientandos:

 

 

Possibilidades

Descrição

Meios e instrumentos

Identificação de oportunidades e desenvolvimento de idéias. Um PN abre a possibilidade da prática e da diferenciação entre oportunidades de mercado e desenvolvimento de novas idéias. As pesquisas que envolvem as oportunidades possibilitam o contato dos discentes com clientes e empresas criando um network que pode abrir oportunidades futuras para eles. O desenvolvimento do processo criativo possibilita a prática de um empreendedorismo comportamental contribuindo para a diminuição de crenças limitantes dos discentes o que diretamente potencializa o poder criativo e indiretamente desenvolve a auto-confiança. Pesquisas de mercado diretamente com potenciais clientes; pesquisas em instituições especializadas; pesquisas em matérias publicadas em mídia; benchmarking; brainstorming, mind-maps.
Diferencial competitivo É comum encontrarmos PN que são criteriosamente bem elaborados dentro de um roteiro definido. Porém, ao compararmos com outros PN, praticamente as únicas diferenças são seus indicadores financeiros e produtos. O que falta, neste caso, é o diferencial que aquele projeto tem em relação aos outros e em relação ao existente no mercado. Nas apresentações públicas do PN esta é a parte que mais deve ser destacada pelos projetistas do PN, pois é este diferencial que chama a atenção de  empreendedores e avaliadores. Benchmarking, brainstorming, análise da concorrência, análise do mercado.
Prática da pesquisa científica Não é difícil encontrarmos PN razoavelmente bem redigidos. Mas quando perguntamos ou investigamos de onde surgiram esses textos, a constatação é que eles são oriundos do que o “discente acha” ou, o que é lamentável, dos famosos “copia-e-cola” da internet. Desta forma, o discente não desenvolve seu ímpeto de pesquisador e diminui a consistência do trabalho. Diferente do que alguns docentes defendem como “PN profissional” desprovido de embasamentos científicos para “não se perder tempo desnecessário”, acredito que seja a fundamentação teórica baseada em pesquisas bibliográficas que vão dar consistência ao trabalho e fazer com que os discentes não se limitem à repetição de textos já escritos e desenvolvendo assim a capacidade de análise, de justificativa e de convencimento. Pesquisas em livros específicos de gestão e livros de instrumentos e de temas transdisciplinares desenvolvidos no PN (por exemplo, o benchmarking, instrumentos de desenvolvimento de criatividade, responsabilidade social, gestão ambiental…); artigos científicos da área de gestão e relacionados ao ramo de negócio do PN; indicadores e levantamento de pesquisas; leis.
Responsabilidade Social e Gestão Ambiental Não há novidade nenhuma quando falamos que o administrador é um profissional que desenvolve o crescimento de uma sociedade e não o desenvolvimento de funções puramente técnicas dentro de uma empresa, isso faz parte do currículo geral do curso. Em função disso, os PN devem contemplar propostas que garantam a responsabilidade social e a preservação do meio ambiente por meio das ações e dos produtos oferecidos pela empresa projetada. Esses temas devem ser transdisciplinares proporcionando não somente um deferencial em um produto ou uma ação da Gestão de Pessoas, mas sim uma forma de ser da empresa, um fator-chave de sucesso. Levantamento de práticas sociais e ambientais desenvolvidas por outras instituições; contato com alunos, professores ou profissionais de outros cursos como, por exemplo, Serviço Social; participação em projetos sociais e ambientais.
Prática da extensão universitária As práticas propostas no PN podem se transformar em projetos específicos e, posteriormente, em ações da instituição de ensino na sociedade. Por exemplo, uma proposta de reciclagem de produtos inservíveis ou ações sociais voltadas para o desenvolvimento do empreeendedorismo na sociedade que constam no PN, podem se transformar em projetos de extensão da instituição de ensino. Desta forma aproveitam-se potenciais e recursos e consideram-se estas práticas como testadas na redação e na apresentação do PN. Projetos de extensão da instituição de ensino.
Desenvolvimento de protótipos. Muitas vezes o produto (bem ou serviço) fica restrito no PN a um bem redigido texto e mais algumas figuras. Por mais que este embasamento seja bem trabalhado, faltará a possibilidade de experimentar ou ver o produto oferecido. Normalmente isto não é feito, pois o desenvolvimento do produto não é uma especialidade dos projetistas do PN. Por exemplo, um PN de uma confeitaria ou de uma empresa de segurança na internet exigiria dos futuros gestores a habilidade de fazer pão ou de desenvolver sistemas de segurança informatizados. Porém esta é a grande oportunidade de relacionamento com outras áreas de conhecimento e com outras instituições. Um PN de uma confeitaria obrigará os seus projetistas a entrar em contato com instituições de formação de confeiteiros e um PN de segurança na internet poderá trazer oportunidades de trabalhos conjuntos com especialistas em tecnologia ou, quem sabe, a integração de um TCC de gestão com um projeto de desenvolvimento tecnológico, um TCC de outro curso. Benchmarking; contatos com outras instituições; contatos com outros cursos; integração e desenvolvimentos conjuntos com outras áreas de conhecimento.
Empresas Juniores Essa é uma das maiores possibilidades de integração de PN em gestão que tenho identificado nos últimos tempos. Todas as atividades de desenvolvimento, os instrumentos, os contatos, as pesquisas dos PN são ricas matérias-primas de empresas juniores. Abre-se possibilidades de que os PN sejam efetivamente postos em prática pela empresa junior, que por ela sejam aplicados os projetos de extensão e até mesmo que a integração de alunos de períodos anteriores ao TCC sejam aproveitados como atividades acadêmicas complementares. Integração com empresas juniores.
Desenvolvimento científico O potencial de informações, pesquisas, desenvolvimentos e aplicações de um PN apresentam inúmeras possibilidades de desenvolvimento científicos. Por exemplo, uma pesquisa de levantamento de intensões de compra de determinados consumidores, pode se transformar em um artigo científico a respeito de comportamento do consumidor. Uma ação de benchmarking pode se transformar em um estudo de caso. Um inovador diferencial competitivo pode se transformar em um livro. Desenvolvimento de artigos científicos; desenvolvimento de livros; desenvolvimento de estudos de caso.

 

Estas são apenas algumas possibilidades que tenho identificado nos quase dez anos em que orientei e avaliei mais de cem planos de negócios em trabalhos de conclusão de curso de administração. Ainda é possível identificar muitas outras possibilidades ao redor deste poderoso instrumento proporcionando ainda a integração entre ensino, pesquisa e extensão. Mas isso dependerá, em grande parte, de um consistente projeto de TCC e de docentes capacitados, integrados, com grande experiência, visão sistêmica e, principalmente, muita motivação.