O clássico da literatura mundial “O Médico e o Monstro”, de R. L. Stevenson, ilustra, com rara pertinência, a fragmentação atitudinal das grandes organizações corporativas na cena mundial.

A ambivalência esquizofrênica do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde se repete analogicamente com as macrocorporações na sociedade de mercado, ora no exercício de papéis de líderes mundiais na destruição do meio ambiente, ora como organizações premiadas como campeãs do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social.

Essa dicotomia se reforça ainda mais, e a dissociação comportamental se realiza em plenitude, quando as organizações colocam o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social como os seus paradigmas máximos de desempenho, integrantes destacados de seus códigos de ética, itens indispensáveis de suas estratégias de negócios, da definição de suas missões e objetivos, de sua ética empresarial como empresas-cidadãs.

Quanto mais o nível de consciência das pessoas aumenta, no sentido de compreender que a situação ecológica mundial cada vez mais se degrada, maior é o discurso das organizações de que elas são as mais fervorosas militantes da construção de um mundo melhor.

Autoavaliam-se como as empresas-cidadãs na transformação e na humanização do homem em suas relações historicamente inadequadas com o meio ambiente.

A constatação da realidade, no entanto, é acabrunhante: degradação crescente dos solos, devastação das florestas tropicais, aumento das áreas de desertificação, poluição química por metais pesados, agravamento das repercussões econômicas e sociais provocadas pelos desastres naturais, degradação dos ecossistemas, deterioração das condições de acessibilidade à água potável, erosão da diversidade biológica etc.

Diante de tal realidade, as grandes organizações se comportam como uma variante institucional do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde: as mesmas organizações que defendem com unhas e dentes o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social são frequentemente as mesmas que, em surdina, exercem as maiores pressões para fazer fracassar quaisquer tentativas de governança corporativa mundial tanto quanto para não regulamentar os procedimentos necessários à contenção dos efeitos do gás estufa, ou para não cumprir o Protocolo de Kyoto, ou para não obter resultados positivos na Conferência de Copenhagen, por exemplo.

Não há dúvida de que as grandes corporações são percebidas como as maiores forças de resistência política ao efetivo controle dos lixos, dos resíduos e dos malefícios decorrentes da sociedade de mercado num mundo globalizado. Reagem, o quanto podem, a desenvolver processos produtivos bem mais sustentáveis, já que querem sempre adiar custos e eternizar ganhos.

As indústrias extrativas do petróleo, do gás e dos minérios são as líderes dos abusos e das agressões ao meio ambiente. Talvez, por isso, sejam as mais generosas no financiamento de ONGs.

São seguidas à distância pelas indústrias de alimentação e de bebidas. Logo depois, surge o segmento do vestuário e dos calçados como os maiores destruidores do meio ambiente. Finalmente, para completar esse quadro de horror ambiental, aparecem as tecnologias da informação e da comunicação.

Para atenuar as repercussões das denúncias e sopesar a indignação do cidadão mundial contra as mazelas que a ação corporativa provoca nas diferentes dimensões do meio ambiente, as organizações se valem de todos e de quaisquer meios: da corrupção à violação da liberdade de expressão e do direito de proteção à vida privada. Não se circunscrevem apenas à preponderância econômica, mas exercem todo tipo de influência sobre a s instituições políticas e jurídicas. É o direito público que se privatiza no interesse das organizações. Tudo à custa de muito lobby, que se pretende legal e moral.

Tal protagonismo absolutamente indevido produz uma espécie de darwinismo institucional-legal, que evolui na construção de leis, normas e sistemas que sempre lhes são favoráveis.

À inexistência de mecanismos institucionais-legais adequados, nacionais e internacionais, para a aplicação de sanções e à quase certeza da inimputabilidade pelas faltas cometidas, agrega-se a privatização da sociedade civil, cada vez mais tomada de assalto pelas influências subterrâneas das forças de mercado.

A chantagem da ameaça do desemprego pela paralisação ou deslocamento das atividades empresariais para outros países é o golpe de misericórdia em quaisquer tentativas cidadãs de resistência.

Assim, sob o manto protetor hipócrita das mais virtuosas profissões de fé no destino do homem e da celebração de pactos e de códigos de ética normalmente descumpridos, as organizações enveredam por caminhos que ilustram muito bem as dificuldades do verdadeiro cidadão em transpor a cortina do medo para realizar estudos comprobatórios e denunciar os crimes financeiros, ambientais, políticos e econômicos que são cometidos cotidianamente por aqueles que se apresentam cinicamente como os apóstolos do bem comum.

Adm. Wagner Siqueira
CRA-RJ nº 01-02903-7
Presidente