Não só a Covid-19 desorganiza as relações tradicionais de trabalho. Há um vírus bem mais antigo que ataca todas as organizações e que há muito destrói ou desestrutura pessoas, hoje chamadas de colaboradores. Pior, para esse antigo vírus não se busca qualquer vacina, mas se pressupõe ser a realidade inescapável das relações de trabalho nos tempos presentes.

Competitividade, rentabilidade e cobrança de resultados a curto prazo, avaliações individuais, cumprimento de metas, diminuição de postos de trabalho, cobrança crescente de melhores desempenhos, relações fugazes e cooperações antagônicas nos ambientes organizacionais. Apenas recentemente ganham alguma projeção as suas consequências como os suicídios por razões de trabalho, já há décadas constatadas e judicializadas em organizações francesas, como a France Télécom; a Renault; a Thales/indústria espacial e de defesa; a Thalys, empresa ferroviária e do TGV; e a PSA- Peugeot/Citroën. Esses são exemplos ilustrativos, apenas partes do iceberg fora d’água para uma problematização gravíssima neste primeiro quartel do século XXI.

Semelhante ao Coronavírus, nem todos morrem, mas todos são indistintamente atingidos por essa moderna epidemia, com suas sequelas como estresse, burnout, fadiga psicológica, perda de autoestima e de desempenho, moléstias laborais. Nenhuma doença do trabalho tem sido por tão longo tempo ignorada e desconhecida, e tão pouco examinada. Os textos de Administração e de Gestão de negócios sequer dela tomam conhecimento mais acuradamente. É como se não existisse. Muito menos a examinam os congressos e simpósios de relações de trabalho, de segurança e higiene no trabalho, de recursos humanos, de psiquiatria e de medicina no trabalho. Estão completamente fora do radar dos pesquisadores das ciências do comportamento humano nas organizações.

Essa é uma epidemia que espantosamente se apresenta para todos como uma consequência natural, absolutamente normal nos termos da ideologia de mercado reinante no universo da sociedade e no mundo das organizações. Parece querer se impor como senso comum de que se trata apenas de perdas não desejadas, mas inevitáveis, que devem ser compreendidas como as consequências não contabilizáveis do desenvolvimento e dos ganhos de produtividade. O silêncio cúmplice dos centros universitários de ensino e de pesquisa em relação à questão compromete a sua imagem de isenção e de responsabilidade com o bem comum.

Essa epidemia do trabalho, tão contagiosa, propaga-se insidiosamente por meio do vírus da exacerbação do individualismo, o que afeta o ser humano em sua essencialidade como criaturas sociais por natureza. Para se contrapor aos seus efeitos, ou mesmo para simplesmente conversar sobre ela, impõe-se fazê-lo com muita prudência. Essa praga organizacional é fecundada por um negacionismo coletivo indiscriminado tão poderoso que é necessário manter-se na defesa para não ser estigmatizado como delirante, fantasioso ou louco. Ao não tomar consciência do problema, o mundo organizacional se torna cada vez mais incapaz de solucioná-lo.