E o comportamento do deputado Fernando Cury ensejou abertura de investigação no Conselho de Ética da Alesp, na Polícia Civil e no Ministério Público de São Paulo. Apesar das imagens flagradas, o deputado afirmava que não tinha assediado sua colega. E, lamentavelmente, em sua defesa lê-se algumas preciosidades de linguagem na descrição do fato que assustam a todos nós, tais como:
. “Não há aspectos ou elementos técnicos que permitam afirmar que houve apalpação ou “encoxada” [….]

. “Se houve um toque na região lateral direita ele ocorreu sem pressão, de forma leve, que no momento não foi ao menos percebido pela deputada Isa Penna, que não esboçou uma mínima reação para o seu lado direito” […..]

. “Não houve intenção de assediá-la sexualmente, não tendo havido má-fé, intenção libidinosa nenhuma [….]

. Não ocorreu violação do decoro parlamentar”.

Mais um vexame para o deputado!

Mas não para por aí. Em 05/03/2021, o Conselho de Ética da Alesp aprovou, por cinco votos a quatro, um abrandamento de punição para o deputado, com a sua suspensão por 119 dias, e para que ele não perdesse o seu mandato, não houvesse a posse do suplente e nem a desmobilização de seu gabinete. Um vexame!

O Brasil testemunhou um assédio filmado dentro de uma casa legislativa e três dias antes do Dia Internacional da Mulher recebe essa decisão vergonhosa do Conselho de Ética da Alesp.

Como os deputados estaduais de São Paulo vão ratificar no plenário uma decisão que estimula a impunidade e o crime? O crime de assédio tem a ver com a falta de consentimento entre as partes envolvidas, fator determinante para a caracterização do crime. Ao meu ver, os deputados ficaram mais preocupados com a descrição, um certo olhar técnico sobre o assédio, descaracterizando as imagens, a covardia do ato inesperado, as reações de repulsa, e, principalmente, a ausência do consentimento.

A deputada Isa Penna, após a decisão do Conselho de Ética, afirmou: “Abre a porta para os assediadores. É um recado principalmente para quem assedia. […] . Isso mancha a história da Assembleia Legislativa.”

É um vexame!

E nós, Administradores e gestores de Pessoas, qual a relação que temos com este vexame?

Nas organizações públicas e privadas os assédios ocorrem com frequência, mas nem sempre são fáceis de serem caracterizados por conta das artimanhas de trocar os atos e ações pelas descrições técnicas e subjetivas do que seria um assédio, uma importunação sexual, desviando a atenção do que é essencial e privilegiando a forma ao invés do conteúdo. A referência importante para os Administradores e gestores de Pessoas nestes casos é a verificação do fato e a existência ou não do consentimento. Esta referência é o melhor caminho
para não corrermos o risco de compactuarmos com vexames como o do deputado Fernando Cury e dos deputados da Comissão de Ética da Alesp!